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Opinião

Adeus, Drew!

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The Drew Carey Show

No sábado foi ao ar no Brasil o final do The Drew Carey Show. Alguém se importa? Eu me importo. Durante muito tempo, The Drew Carey Show foi a minha comédia favorita – mais até que Friends ou Seinfeld. É, eu sei, parece absurdo. Mas The Drew Carey Show é uma série repleta de virtudes e aspectos interessentes que merece ser estudados – ou homenageados.

Acompanho a série no Brasil desde os tempos da Warner (isto mesmo, Drew já foi da Warner), de onde migrou para a Sony e viajou pela programação do canal até o limbo das manhãs de sábado. Apesar do abandono, Drew teve uma trajetória rica. Nos EUA, o seriado já foi trunfo da ABC, ficando no três primeiros anos (de 1995 a 1998) no Top 20 do Nielsen e conseguindo média de 17 milhões de telespectadores durante sua segunda temporada – ou seja, ela foi o Lost do canal entre 1996 e 1997. Foi este histórico, aliado ao talento de Drew Carey como negociador, que manteve o show no ar por nove anos – mantendo a sitcom em produção mesmo quando a rede ABC não tinha mais interesse no programa. E nunca se soube de Drew Carey reclamando por melhores salários ou dizendo que quer fazer cinema ou experimentar novos personagens.

O que sempre me empolgou em The Drew Carey Show foram os roteiros que beiravam o surrealismo. A série criava situações inacreditáveis e absurdas e, exatamente por isto, extremamente originais. O show também seguidamente experimentava em produção e em direção – haviam episódios improvisados (na onda Whose Line is it Anyway?), locações ao ar livre e até brincadeiras com o Universo da produtora Warner (em um episódio, Drew contracenou com Patolino, ao estilo Uma Cilada para Roger Rabbit, em outro ele ganha uma Batmóvel).

E, com tantas variações e ousadias, havia um excelente elenco que segurava o rojão e fazia todo este besteirol se tornar convincente. Lewis (Ryan Stiles) e Oswald (Diedrich Bader) protagonizaram alguns dos momentos mais absurdos da TV americana. Repare que as asneiras da dupla (além de todas as sugestões de relação homossexual implícita entre os dois) são uma constante na série, e não um recurso (em Friends, por exemplo, a burrice de Joey ou a loucura de Phoebe são acessórios, que os roteiristas acionam apenas quando há necessidade). A série revelou ainda a fantástica Christa Miller – ela se casou em 2002 com o produtor Bill Lawrence que, espertamente, a tirou da série para reforçar o elenco de sua Scrubs. Craig Ferguson também marcou época como britânico excêntico Nigel Wick – que em seu melhor momento fez piada com um tema sério, o alcoolismo.

O que nos leva a outra observação: em 50% das cenas, ou mais, os personagens aparecerem tomando cerveja. A gente nem percebe, mas é uma ousadia – o bêbado é um personagem comum no humor brasileiro, mas é quase um tabu na TV americana.

Outro charme da série é o estilo do seu protagonista. Drew Carey é um stand-up comedian atípico. Ele não é cara de pau como Jerry Seinfeld, Robin Williams ou Ray Romano. Ele é tímido, desajeitado, quase não olha para a câmera (alguém sabe dizer qual a cor dos olhos dele por trás dos óculos de aro grosso?). Apesar das engraçadas grosserias que troca com Mimi (Kathy Kinney), seu humor raramente ofende alguém. Porque geralmente o alvo de sua piada é a si próprio. O Drew-Personagem é um loser, um perdedor, o que torna um protagonista raro em sitcom – geralmente o loser é o amigo do protagonista do seriado, como um George Constanza. Raras exceções: Al Bundy, mais ofensivo em seu discurso, e Homer Simpson, mais retardado.

Eis aí a chave.

A graça do The Drew Carey Show é em fazer humor com os derrotados, os incompetentes, os perdedores e azarados, e em especial com aquela grande fatia do povo americano que só gosta de futebol americano, revista de mulher pelada, carrões, pizza e cerveja. Mas o faz com bom gosto, criando um personagem que permite a identificação, pelo qual se pode torcer.

Apesar de todo o experimentalismo, quando dissecado, The Drew Carey Show mostra que funciona pela simplicidade. Coincidentemente termina no Brasil em uma fase de crise das sitcom, que provoca o surgimento de novas sitcoms ainda mais complexas. Acabou de terminar, mas já faz falta.

É jornalista, pós-graduado em Jornalismo Digital pela Pucrs e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. É editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Fundou o TeleSéries em agosto de 2002. Na época, era fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed. Atualmente é viciado em The Good Wife, NCIS, Game of Thrones e Parks and Recreation.

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