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The Tudors, erros ou licenças poéticas?

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The Tudors: erros e licenças poéticas

The Tudors, que estréia nesta quinta-feira (28/8) sua segunda temporada no People+Arts, é uma série cercada de polêmicas. Não é muito comentada pelos fãs de seriados de TV, mas atrai mundo afora telespectadores diferenciados. Não é querida da crítica, mas a qualidade de sua produção e de seu elenco vem conquistando prêmios, especialmente na Europa.

O seriado, no entanto, provoca discussão justamente onde deveria ter mais apoio – dos pesquisadores e interessados em História. O problema é que a série valoriza o romance e o sexo, as intrigas palacianas, busca cenas de ação e drama, deixando de lado a coerência e a veracidade dos fatos.

No ano passado, em entrevista ao site This is London, Leanda de Lisle, biógrafa da dinastia Tudor comentou:

A série é mal escrita e extremamante vulgar.

A reportagem reproduz ainda um comentário postado no site da BBC, que dizia:

Imaginem minha triste decepção com a releitura, fora do contexto e fora do tempo histórico de Henrique VIII. A história dos Tudors já é apimentada o suficiente e certamente não precisava desta americanização.

Gabrielle Anwar em The TudorsA Wikipedia reúne dezenas de referências a incorreções históricas do seriado. A mais importante delas, certamente, é que a princesa Margaret, uma das personagens mais importantes da primeira temporada temporada, nunca existiu.

A princesa interpretada por Gabrielle Anwar une fatos históricos vividos por duas irmãs do Rei: Maria Tudor, irmã mais nova de Henrique, e Margarida Tudor, ou Maria I, a irmã mais velha.

Henry Cavill em The TudorsMaria Tudor foi casada com o rei francês Luís XII da França e, após sua morte, com Charles Brandon, o Duque de Suffolk. Na série, antes de casar com Brandon, Margaret se casa com o rei de Portugal. É neste ponto, em especial, que o seriado sai do trilho, decepcionando especialmente os telespectadores portugueses. O casamento de Margaret com o rei de Portugal foi uma invenção dos roteiristas.

A jurista portuguesa Maria José Nogueira Pinto escreveu um artigo para o Diário de Notícias, em abril deste ano, onde critica a série e o retrato feito do portugueses:

Após uma imagem de rara beleza do Tejo e da Ribeira das Naus, seguiu-se uma sucessão de cenas de verdadeiro horror. D. Manuel era um gnomo marreca e saltitante, desdentado e de olhar lúbrico, baboso, falando um português mal amanhado. A corte, um conjunto de velhotas vestidas de negro, clérigos encapuçados, homens feios e sujos. As cerimónias pareciam ter como cenário uma espécie de barracão e as músicas eram espanholas (Falla?). O casamento consumou-se no que poderia ser um quartinho do Castelo de S. Jorge, com uma data de basbaques de mau aspecto rodeando o tálamo conjugal e aplaudindo grosseiramente.

Segundo Nogueira Pinto, D. Manuel se casou três vezes e nenhuma delas foi com uma nobre inglesa. Morreu aos 52 anos, certamente não assassinado pela esposa. Há um problema cronológico ainda – como a primeira temporada de The Tudors se passa entre 1518 e 1530, o rei de Portugal na verdade deveria ser D. João III, que deveria ser jovem, com cerca de vinte anos de idade.

Incomodou especialmente ao telespectador brasileiro e português o fato do Rei português ter sido interpretado por um ator que não era português e que não sabia falar português. Segundo o TV.com, o ator se chama Joseph Kelly.

Houve casamento com outro rei? Ah, sim, a irmã mais velha de Henrique, Margarida Tudor, se casou com Jaime IV, Rei da Escócia. O casamento serviu para pacificar as relações de Inglaterra e Escócia e ocorreu 12 anos antes do casamento de Maria e Charles Brandon.

Zak Jenciragic em The TudorsA série reúne ainda diversas inconsistências históricas, especialmente na passagens do tempo. E há erros em figurino, na linguagem, nos cenários. Numa cena clássica do segundo episódio, Henrique comemora o nascimento do seu filho bastardo dando um tiro com um mosquete (dentro do palácio!). Este tipo de arma só foi criado em 1630, um século depois.

E falando no filho bastardo, vemos outra liberdade da série. O garoto Henrique Fitzroy, nascido de uma relação do Rei com Bessie Blount, morre na série aos três anos de idade. A história registra que Fitzroy faleceu aos 17 anos, em 1536.

Sam Neill em The TudorsA série tem este hábito de alterar os fatos para criar cenas dramáticas. A maior delas é sem dúvida a o suícidio do Cardeal Wolsey, o personagem-chave da primeira temporada, interpretado com brilhantismo por Sam Neill.

Na verdade, Wolsey não foi preso e nem cometeu suicídio. Acusado de traição, Wolsey perdeu seus bens, mas teria mantido o título de Arcebispo de York. Morreu quando viajava para seu julgamento, em Leicester.

Joe Lean em The TudorsOutra liberdade poética é o tempero homossexual colocado na série. A primeira temporada mostra o surgimento e a ascensão de Thomas Tallis, um dos maiores compositores de seu tempo. Não existe nenhuma referência histórica que comprove que ele manteve relações homossexuais.

The Tudors é o primeiro drama histórico do canal Showtime e, quando sua produção foi anunciada, a sugestão que ficava no ar é que o canal queria roubar um pouco da glória da HBO – que havia emplacado Deadwood e Roma. Em The Tudors os protagonistas são nobres, enquanto que em Deadwood e Roma eles são xerifes, cafetões e soldados, quase que notas de rodapé da história, com muitos espaços em branco em suas trajetórias para serem exploradas para ficção.

The Tudors traz para tela acontecimentos relevantes da História Moderna e tamanha liberdade para recontar esta História pode confundir o telespectador mal informado e irritar o telespectador mais exigente. É um ótimo entretenimento, mas que talvez devesse vir com algum alerta.

Como escreveu Nogueira Pinto em seu artigo:

Perdida a dimensão de relato histórico, o que resta passa de ficção a embuste.

Saber diferenciar a ficção do embuste é o desafio para quem assiste The Tudors.

* * *

A segunda temporada de Tue Tudors é exibida nas noites de quinta-feira, às 22h, no canal People+Arts.

Com informações da Wikipedia, do The Tudors Wiki, do Diário de Notícias e de This Is London.

Séries citadas:

É jornalista, pós-graduado em Jornalismo Digital pela Pucrs e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. É editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Fundou o TeleSéries em agosto de 2002. Na época, era fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed. Atualmente é viciado em The Good Wife, NCIS, Game of Thrones e Parks and Recreation.

74 Comments

  1. Lady Jean de Bethencourt

    Sou professora de História, conheço a saga dos Tudors e acho a série fantástica. Não dá para negar as incoerências mas, na dúvida ou para maiores esclarecimentos e também para aprender porque não consultar alguns livrinhos. A turma vai ficar surprêsa com a quantidade de verdade e coerências que a série também contém. Sugiro uma pequena leitura no “Henrique VIII” de Frank Dwyer, da coleção “Grandes Líderes”. Até eu relí. Já assistí a 3° temporada e adorei. Acho que amadureceu muito.

  2. osul

    ” do povo não resa a história”…
    Por isso gostei tanto da série Roma. A história dos plebeus era criativa e divertida, dava asas à imaginação. A história dos nobres era real. A qualquer acontecimento, lá vinha eu confirmar a História e muitas vezes antecipar-me à série. Adorei, e julgo que o mérito da série é o malabarismo conseguido entre as Classes. Nos Tudors, pus em causa os meus conhecimentos da História de Portugal, e só descansei até ver que não passa tudo de ficção. Gostei da série como também gostei da Guerra das estrelas. Efeitos bonitos e actores bem parecidos…

  3. Hey

    Pra quem de fato gosta de história e sabe o que ela é, a busca pela verdade de fato é algo que jamais será alcançado, uma vez que não há uma verdade, mas diversos pontos de vista sobre os fatos. Enveredar-se pela história de uma dinastia talvez nos faça cair em anacronismos, imperdoáveis para quem analisa a história, porém irrelevantes muitas vezes pra quem busca entretenimento. O interessante é conseguir que produções como essa nos levem a buscar nossas próprias visões sobre a história e mais do que isso, nos levem a propor algo para o presente. Para mim, o que vale, é fazer surgir a paixão pela história, para isso, talvez a série faça algum sentido.

  4. Nathália

    Concordo com TODO o comentário acima! “…uma vez que não há uma verdade, mas diversos pontos de vista sobre os fatos…”. Amo história, e a série me leva a buscar informações sobre o assunto, me desperta o interesse. Realmente não serve como parâmetro para estudo, mas sim como motivação para pesquisar e conhecer, sem contar o entretenimento. Séries, como foi dito, não são documentários. Não se pode comparar.
    E eu não confiaria tanto nas descrições do site Wikipedia, afinal, como diria meus professores: na hora de pesquisar, cuidado com informações da internet. Estou lendo “As seis mulheres de Henrique VIII” e estou achando ótimo. Ouvi falar que é um dos mais verídicos, e me parece ser mesmo.
    Gostei do site pela polêmica gerada. Adorei ver o que cada um pensa, mesmo nem sempre pensando igual. Me identifiquei com diversos comentários.
    Galera, aproveitem a série e o que ela proporciona. Com relação a história, vão ler um livro!

  5. Patricia FN

    Olá…
    estou assistindo a série ha pouco tempo, mas estou amando…
    concordo com todos que disseram que a serie suscita a pesquisa pelos FATOS historicos pq muitas vezes vendo a serie me perguntei se realmente era daquele jeito… e isso esta me fazendo pesquisar muito, ja estou com uma lista de livros para ler sobre o assunto e pensei em começar com O Secreto Diario De Anna Bolena, mas eu gostaria de opinioes de historiadores sobre esse livro, para eu saber se realmente posso confiar ;)

    e o que me fez duvidar tbm foi a questao religiosa em relaçao as varias cenas de sexo da trama… fiquei me perguntando mais uma vez se era assim mesmo, ja que a Igreja Catolica criticava qq forma de prazer naquela época nao?!

    nossa, essas opinioes pelo jeito vao longe! ahsuhuas
    quase um ano ja desde o primeiro comentario (28/08/2008)

    haha
    espero que continuem ^^

  6. Noeli Teresinha Tomé

    Acabei de ver nesta semana as duas temporadas da série.(6 DVDs em uma semana). E aguardo a chegada da terceira temporada. Enquanto assistia, anotava os nomes dos personagens e fatos dos quais pretendia me aprofundar. Ou seja, pelo interesse que a serie me despertou (apesar de erros e licenças etc. etc.) estou dedicando muito mais tempo pesquisando em busca de informações históricas.
    Esse é o ponto!

  7. carla

    acho a serie sensacional, muito melhor do que ficar assistindo lost ou seja la qual for o seriado. mesmo tendo inconsistencias, acho muito mais valido e interessante. concordo que ha distorcoes desnecessarias e assisti sabendo que elas provavelmente existiriam, e por isso pesquisei um pouco tambem apos ver os episodios. entretanto, continuo achando uma serie espetacular.

  8. John Jonah Jameson

    Bla bla bla… Vê quem quer, gosta quem quer e reclama quem tem tempo.
    Remodelando algo já escrito aqui… Aula de história é na escola ou em livros. Só pra acidificar mais um pouco… Citar wikipédia como fonte de informação, pra mim, é o mesmo que querer aprender história em uma série, que obviamente foi desde o começo, ficção.
    ENTRETENIMENTO PESSOAS, ENRETENIMENTO!!! Não confundam as coisas…
    Ah e pra quem defende avisos pra essa série… vários filmes se utilizam do famoso “baseado em fatos reais” e não “pode conter veracidade em alguns fatos relatados aqui”.

  9. Sílvia Baumgarten de Ulyssea Baiao

    História, eu conheço muito bem a queda da monarquia francesa, no século XVIII, mas já li algumas biografias de Henrique XVIII incluindo a de Antonia Fraser “As Seis Mulheres de Henrique XVIII” e como sei que é utópico imaginar que uma série de televisão possa ser uma aula de história, perdoem-me, mas acho a série apaixonante…Jonathan R Meyers, apesar da diferença físíca que acreditamos ter com o personagem que interpreta, está magnífico! Como mostra bem a volatilidade, a distorção da verdade que lhe aplacava a consciência…! REPITO: MAGNÍFICOS, TODOS.

  10. Roberto Zarattini

    A série é simplesmente fantástica, mesmo com todas as mudanças. Imperdível.

  11. aline

    amo a serie,a historia ensinada nas escolas nem sempre sao veridicas,como a do brasil, a pricesa izabel libertou os escravos por medo de uma revolta nao por compaixao, portugal nao descobriu o brasil, invadiu,nao colonizou,explorou,transformou o brasil numa colonia penal,mandando tudo que nao prestava de portugal para ca

  12. Ana Luca

    Adoro The Tudors…acabei de assistir a primeira temporada em DVD e já comprei a segunda e a terceira… Bom, como eu já havia lido a história das familias Lancaster, York e Tudor percebi os erros históricos na hora. Mas acho que a licença poética é valida, já que seriado precisa vender… Se fosse exatamente igual a história, seria um pé, ninguém veria e não venderia…é triste, mas é verdade!
    E na minha humilde opinião Henry Cavill rouba a cena total no seriado! M A R A V I L H O S O

  13. Bruno Carvalho

    Aline,

    Você está com uma péssima opinião dos portugueses e até mesmo de D. Isabel (que, note-se, não era soberana…)! Abra seus horizontes e leia mais livros!

  14. J. K. 7

    E não se esqueçam que temos nossa “The Tudors” Tupiniquim fazem anos: Quintos dos Infernos é a série feita de noss triste história a la folhetin global….

  15. Eduarda Monnerat

    O roteirista de The Tudors está trabalhando agora em um projeto sobre a Revolução Francesa… O que mais deveremos engolir?

  16. Nscsrose

    Eu achei a série muito boa, com certeza me conquistou, mesmo não seguindo corretamente a história, sua trama foi muito bem montada e traduziu muito bem sentimentos da época e os personagens, afinal tudo o que é histórico desde a própria história e o figurino deve ser adaptado para os dias de hoje, para o nosso entendimento e aceitação do público. Com certeza foi um grande sucesso, a única série que eu segui anciosamente até o último capítulo que para mim não deveria ter sido já na quarta temporada, por mim existiriam muitos outros!!!! Eu não achei a série nem um pouco americana, como comentado, muito pelo contrário.. suas caracteristicas são totalmente européias, como as várias cenas de sexo, encaradas normalmente pelo público europeu, e nem um pouco vulgar na minha opnião.. penso que o roteirista quis focar mais no comportamento do rei e seus escandalos, como falado em entrevista com o protagonista, este explicou que as alterações seguiam para atrativo do público. É muito difícil passar sentimentos concretos da época para nós que hj pensamos completamente diferente.. com o devido cuidado e alterações o roteirista conseguiu passar, e penso que isto foi o mais importante.

  17. Joana

    Mesmo com todas as liberdades que os autores tomaram, a série ainda consegue estar mais apurada que o filme Duas Irmãs, Um Rei, que dá a entender que a Ana Bolena tentou roubar os afectos do rei à irmã por inveja e despeito e que o rei casou com ela contrariado. Desse filme só se safa a boa interpretação da Natalie Portman, mas que não chega aos calcanhares da de Natalie Dormer (Tudors), que na segunda temporada faz um papel digno de prémio. Na minha opinião os Tudors são muito superiores ao Duas Irmãs, Um Rei, Tem excelentes actores e está muito bem feita. Mantém a qualidade ao longo das quatro temporadas.

  18. Thaina

    Preciso assistit essa serie,para tirar minhas próprias conclusões …

  19. Fabio Brunetti

    Acho que a crítica é bem-vinda, salutar e está coerente. No entanto vale lembrar que os mais sóbrios documentários nunca trarão 100% de verdades absolutas. Fatos históricos surgem embasados em pesquisas, por vezes muito pobres em evidências e fatalmente acabam resultando em conclusões equivocadas. Fato é que esta série The Tudors é para entretenimento. E só. É uma obra de ficção adaptada em fatos, não necessariamente ou igualmente, reais também. Cabe ao espectador inteligente o discernimento em saber que produções de mídia visam lucro e audiência somente.

  20. Helen

    Nem sempre o telespectador é inteligente ou se apega a fotos históricos reais, mas realmente muita coisa na serie fica a desejar, mas há boas atuações. 

  21. Danilo Salvego

    Pois é. Assisti até o quinto capitulo, quando vi essa tal de princesa Margaret se casando com o Rei português; Como não me lembrava de nada disso, fui pesquisar…. ai chegou a decepção. A questão é que eu quero assistir uma série, não um documentário, mas mesmo assim a liberdade poética tem limites, até mesmo para produções biográficas, como acontece em Minha Amada Imortal e Amadeus.
    Eu entendo que a série exagerou a ponto de inviabilizar o motivo dela existir. Pq eu vou querer saber de uma história de um rei da Inglaterra que não exixtiu??? Ainda gosto to tipo de ficção e de fidelidade (e da liberdade poética) que vejo no Mad Man.

    Belo artigo Paulo. Parabéns!

  22. Antonio Fabio

    Fato haver vários erros na história da dinastia Tudor, a mais gritante é a irmã de Henri VIII ir para Lisboa e casar com um rei de Portugal que não era de sua época e tê-lo assassinado, no mais não passa de um seriado onde os venenos da corte Tudor nos mostra que quase nada mudou no comportamento humano quando se trata de poder, bajulação e intriga.
    Vale a pena ver.

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