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Spoiler: Ronald D. Moore erra a mão em Virtuality

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Virtuality

Amo filmes de ficção científica. É um gênero marginalizado e que sofre de preconceito por parte da crítica. Mas eu amo. Se boa parte da história se passa no espaço, estou dentro e vou assistí-lo com certeza. Claro, há sempre uma ou outra bomba, mas acredito que sou um cara fácil de agradar nesse gênero. Gosto até mesmo de obras execradas pela crítica especializada, como Missão Marte ou Sunshine: Alerta Solar.

Entre os seriados, a coisa já complica um pouco: não sou de acompanhar Jornada nas Estrelas ou derivados. A única que felizmente atingiu meu radar foi Battlestar Galactica. Essa obra prima acabou sua jornada de quatro temporadas no início do ano, e apesar de saber que a saga continua em telefilmes e em um seriado prelúdio, meio que me sinto órfão sem BSG. Sentimento que prometia acabar quando soube do anúncio de Virtuality, novo projeto de Ronald D. Moore, a mente por trás de Battlestar Galactica.

Mas foi só assistir o piloto (ou telefilme, como queiram) que a decepção me atingiu em cheio. O episódio foi ao ar nesta sexta-feira (26/6) nos Estados Unidos na Fox e, o que tinha tudo pra dar certo, na verdade se revelou como uma confusa colcha de retalhos e com um roteiro que falhou ao tentar englobar todos os segmentos da audiência, parecendo não ter agradado física ou virtualmente ninguém.

O enredo, situado algumas décadas no futuro, é o seguinte: a estação espacial Phaeton, com setores que possuem rotação artificial como a de 2001:Uma Odisséia no Espaço, é o habitat de 12 pessoas em uma viagem de dez anos até o sistema Epsilon Eridrani, em busca de vida inteligente. Mas o que havia começado como uma simples exploração espacial, transformou-se numa missão de sobrevivência, pois cientistas descobriram que o planeta Terra chegou ao seu limite e a humanidade só duraria mais cem anos.

Essa constatação é feita com a viagem já iniciada e em proximidade de um momento importante: o ponto sem volta do estilingue gravitacional de Netuno. Ou eles circundam o planeta e partem para a viagem de 10 anos que pode salvar a Terra, ou retornam para casa e se preparam melhor para a missão que ganhou imensa importância.

Até aí, não há nada de mal.

Bem, como a série só tem 12 personagens e o confinamento de uma nave espacial não contribui para a construção de arcos empolgantes em um seriado, alguns argumentos precisaram ser criados pra dar fluidez à história. Ora, isso funcionaria para um filme, mas não em uma série com vários episódios por temporada, certo? Conflitos são bem vindos, ou a trama fica maçante.

E é na construção desses argumentos que a série é destruída.

Virtuality tem uma importante peça em suas histórias: o mundo virtual. Algo bem óbvio, pois esse é o maldito nome do seriado (ou telefilme, que seja). Para impedir que os astronautas enlouqueçam ou percam o foco da missão, o uso de um aparelho que possui a capacidade de colocar seus usuários num mundo virtual é essencial. E esses mundos virtuais englobam tudo o que você puder imaginar, colocando-o virtualmente onde quiser, como na guerra civil americana, uma conversa com seu filho morto, sendo um pintor de paisagens, alpinista, astro do rock ou mesmo escapadas sexuais.

A gama de possibilidades é enorme. Tudo pode acontecer na série graças a esse aparelho. Infelizmente tudo, das boas às más idéias.

Virtuality

Os mundos virtuais em Virtuality são extremamente falsos. Bem, talvez como premissa, preferiu-se que as apresentações virtuais não soassem como verdadeiras, mas a cor do céu, os cenários fechados e super coloridos, mais alguns dos modelos de projeção escolhidos pelos usuários, não me agradaram em nada. Pareceu idiota. Pareceu até meio que babaca. O que me dói em dizer isso, visto que sou muito fã do gênero.

Acredito que essa minha má impressão pode ter sido causada não pela idéia do mundo virtual, mas pelo pretexto que foi utilizada: estava claro que era um argumento para o agrado de todo tipo de público. Porém, mesmo que a idéia seja captar telespectadores para um gênero marginalizado e pouco apreciado, o resultado nunca é bom.

Na trama, uma “falha do sistema” é representado na forma de um psicopata que, virtualmente, mata diversos personagens e até mesmo estuprou uma das mulheres a bordo. Isso é disparado a coisa que mais funcionou na série: Jimmi Simpson, o ator escolhido para representar essa ameaça, tem mesmo um perfil de dar medo (e vá lá, até me lembrou Cillian Murphy de Sunshine). Mas a longa ênfase em outros momentos, como a emboscada da guerra civil ou o show de rock japonês… Não, não, não e não!

Há momentos em que o piloto (telefilme) acerta, como nas participações de Jimmi Simpson ou nos raros momentos de ficção científica. O design exterior da nave? Perfeito. A aceleração em Netuno? Adorei. O acidente que expõe um dos astronautas no vácuo do espaço em cena semelhante à Enigma do Horizonte? Quase fizeram valer a pena pela longa duração do episódio. Mas só quase. No mais, a série só erra.

Os personagens não são nada carismáticos (um grande erro devido o ambiente claustrofóbico da série), as atuações são muito fracas e as motivações deles são as mais rasas possíveis. Tirando a enfermidade do médico (curioso como Moore não leva fé nos avanços da medicina em suas visões do futuro), não há nada de interessante nos tripulantes. O segundo em comando é paralítico, o projetista da nave perdeu o filho, os “cozinheiros” são um casal gay que se ama, há um outro casal, dessa vez hétero, que não possui química nenhuma… Eu poderia seguir por todos eles, mas nada supera a existência da apresentadora e do psicólogo diretor do reality show.

Exatamente… O principal plano de fundo disso tudo é um reality show.

A revelação de que a nave é o cenário de um Big Brother espacial (e logo nos primeiros minutos) é a maior ducha de água fria possível. A idéia de que a tripulação a caminho de Epsilon Eridrani é patrocinada por um canal de televisão, e continuará com essa atmosfera de tensão Big Brother, apesar da mudança de planos (o objetivo agora é salvar a humanidade) só porque a audiência do programa após o anúncio do fim da humanidade foi de cinco bilhões de telespectadores, é um verdadeiro absurdo!

Se a trama não fosse uma vendida, ela teria tudo pra dar certo. Uma nave espacial com poucos tripulantes e um assassino a bordo? Prato cheio para os fãs de sci fi. Mas um Big Brother com personagens rasos e sub-tramas irrelevantes, com exploração vazia de casos amorosos e tediosos delírios virtuais? Apenas uma tentativa desesperada de se vender ficção científica pro povão. E de maneira nenhuma (nem mesmo virtual) isso daria certo. Vide o 1,8 milhão da audiência irrisória de Virtuality que, infelizmente, torço pra não virar seriado. Como fã do gênero, estou verdadeiramente decepcionado.

Virtuality

Séries citadas:

14 Comments

  1. Mauricio

    Tua review me deixou super curioso pra NÃO ver esse telefilme, hihihi.

    Brincadeiras à parte… que bomba!!

  2. Cláudio G. Schon

    Uma nave espacial com sobreviventes da raça humana onde um grupo precisa ficar viajando por ambientes com culturas diferentes? Isto me lembra algo, era uma série, acho que britânica, com uma nave cheia de domos. Cada domo era um habitat com uma cultura humana diferente. Um grupo de três viajantes precisava ficar indo de domo a domo até achar a ponte de comando, pois a tripulação havia morrido e a nave estava indo, desgovernada, em rota de colisão com uma estrela. Os efeitos eram horríveis (acho que a série é dos anos 60), mas vocês vêem que o enredo é mil vezes melhor que a bomba que você mencionou em seu review :-). A propósito, alguém me ajuda a lembrar o nome desta série que mencionei? Acho que era Ark One, mas a busca na Wikipedia retornou apenas uma série mais nova, ambientada na Terra.

  3. Andrea

    Os roteiristas cresceram apaixonados pelo Holodeck de Jornada das Estrelas – Nova Geração e inventaram toda uma série em cima disso ;)

    Pô, a premissa, mesmo sendo big brocha, parecia legal, aproveitando um tema bem moderno (no bom sentido)… mas aturar canastrão e história ruim, como vc disse, ‘quebra tudo’.

  4. Luiz - RJ

    Claudio,

    a serie a que você se refere é STARLOST que tinha como principal ator o Ker Dulea que fez 2001, uma odisseia no espaço.

    A trama desta serie com certeza dá de dez a zero nesse piloto. Espero que realmente não vire série a menos que façam mudanças radicais no roteiro.

    Abraços

  5. Cristina

    Que bommba mesmo, é um gênero bem marginalizado por argumentos mal feitos, e pessimos roteiros, mas depois dessa, noossaaaa deu até vontade de verificar se é mesmo tão ruim assim…

  6. Jan

    Eu fiquei igualmente decepcionado. No momento em q eu vi essa história de reality show eu perdi totalmente o tesão de continuar vendo, simplesmente horrivel essa ideia, eles poderiam muito bem ter criado outro tipo de historia. Mesmo assim continuei vendo, o q acabou sendo 1:27:08 de desperdicio de tempo.

  7. Regina Monteiro

    Nunca li um texto que expressasse decepção tão bem. Ainda nem vi o piloto, mas perdi completamente a vontade de assistir. E olha que eu também amo ficção científica.

  8. Marco

    O mais engraçado é o povo gado nem se dar ao trabalho de construir a sua própria opinião. Preferem seguir a de um outro… Clássico!

  9. Cristina

    Que povo do gado Marcos! Sempre é bom quando se pode contar com opinião alheia para se escapara de roubadas, eu teria adorado que alguém me dissese que FLASH GORDON é uma porcaria antes de perder tempo baixando e assistindo…

  10. Fernando dos Santos

    Eu suspeitei desde o início que este projeto não seria grande coisa, mas mesmo assim vou conferir.
    Talvez se for encarado como um projeto menor do Ron D. Moore e visto com baixas expectativas, até fique assistível.
    Eu espero excelência é de Caprica, o spin-off de BSG.Outro pelo qual tenho grande expectativa é SG:Universe, mas Virtuality me deixou com um pé atrás desde o início devido a sua premissa.

  11. Cláudio G. Schon

    Valeu Luiz, eu estava atrás desta informação há tempos. A série era canadense (e não britânica) e o ano era 1973. Me lembro que fiquei decepcionado quando o série terminou sem dar uma resposta à questão principal (como corrigir o curso da nave).

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