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Spoiler: [Polêmica Alert]

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Desde abril desse ano – mais precisamente sete de abril, dia seguinte à estreia nos Estados Unidos e na HBO Brasil da quarta temporada de Game of Thrones -, um assunto entrou em evidência como nunca antes nas redes sociais: o spoiler.

A palavra da língua inglesa, derivada do verbo spoil, que significa estragar, causar dano, já tem até uma entrada específica no dicionário relacionado a séries televisivas:  spoiler, segundo o dictionary.com, são comentários que revelam elementos importantes da trama de livros, filmes ou séries, negando ao telespectador ou leitor o suspense próprio que a obra deveria proporcionar. Mas contar o final ou revelar partes importantes de histórias publicamente não é novidade, e acontece antes mesmo do surgimento do Facebook. No caso das novelas brasileiras, há uma tradição de periódicos especializados em revelar o destino dos personagens e em qualquer prateleira de supermercado podemos ficar sabendo sobre casamentos e paternidades futuros nos folhetins. Mas porque agora o assunto está em foco? O que há em Game of Thrones que estimula tanto os spoilers?

É inegável o sucesso da série baseada nos livros de George R. R. Martin. Game of Thrones é a série mais assistida, mais pirateada e com mais repercussão midiática da HBO. E todo esse buzz inclui, claro, os comentários de quem assiste. A particularidade de GoT é que se trata de um show baseado em livros, o que faz multiplicar por dois as fontes de spoilers: há quem assiste os episódios “ao vivo” com a exibição da HBO e conta pros retardatários, e há quem já leu as Crônicas de Gelo e Fogo e salpica informações pra quem é apenas telespectador da série. E mesmo Game of Thrones sendo um produto diferente dos livro da saga, é uma adaptação que segue bem de perto os destinos dos personagens escritos por Martin, não divergindo muito da história original, como é o caso de outros seriados baseados em livros como Dexter, True Blood ou no HQ The Walking Dead, em que a história muita vezes é apenas uma inspiração e há plots completamente diferentes. Soma-se às dupla fonte de spoilers o fato de Thrones ser uma série repleta de twists, que constrói suas tramas para logo depois destruí-las na nossa cara, o que causa entre os telespectadores sentimentos de tristeza, revolta e êxtase, que têm muitas das vezes sua catarse no comentário de spoiler.

A equação maior série da HBO + leitores e telespectadores apaixonados + twists irresistíveis explica o grande fluxo de spoiler sobre a trama. Pensamos que a internet destruiu a ideia de programação fixa, mas segunda-feira é religiosamente o dia de comentários sobre a série na internet, uma mesa redonda de críticos revoltados e surpresos, o que em si é maravilhoso porque mostra o quanto a obra é instigante e inspiradora, senão fosse pelas pessoas que não conseguem se segurar e estragam a surpresa dos que não estão em dia, ou muitas das vezes não estão “em hora” com o episódio (eu já recebei spoiler no Twitter de quem tinha minutos de vantagem de exibição!).

Mas o spoiler é realmente tão negativo assim? Há quem diga que com a internet o fluxo de informação é tão rápido que ficar sabendo de spoiler é a coisa mais natural a se esperar. Há quem diga também que com os serviços de streaming, como o Netflix e o próprio HBO GO, onde a exibição é controlada pelo usuário, é impossível estabelecer uma temporariedade dos comentários. Eu não penso dessa forma. Primeiramente, falar que a internet mudou tudo é um dos clichês mais comuns de quem não sabe analisar muito bem os fenômenos. A questão da compressão de tempo é uma consequência do capitalismo e é muito mais antiga do que a internet. A própria internet não é nova: grande parte dos fãs de Game of Thrones é de uma geração que cresceu com internet, então não é algo com o que lidamos agora. Outro ponto a se considerar é que esse contexto não pode ser justificativa direta para o comportamento das pessoas. Não saímos por aí contando quem morre nos seriados por conta do fluxo acelerado da internet; quem conta é porque quer contar, da mesma maneira que ter uma vida acelerada em que temos que conjugar trabalho, estudo e vida pessoal não nos dá o direito de sair por aí empurrando as pessoas nas ruas ou furando filas. Tem muito mais a ver com o respeito ao próximo do que com questões de modernidade. Ora, respeito é um conceito tão antigo quanto um mandamento católico.

Há quem diga que se preocupar com spoiler é besteira, que a obra é mais importante do que o seu desfecho, e aproveitar o episódio como um todo torna insignificante o conhecimento de informações prévias específicas. Bom, há dois pontos a se pensar aí. O primeiro é que ditar como se deve consumir produtos culturais é só mais uma maneira de ser pedante, o que leva ao segundo ponto: quem decide o aspecto mais importante na obra é o próprio consumidor! É inegável que Game of Thrones tem um roteiro construído para quebrar expectativas constantemente. Há arranjos enormes na trama só para serem desconstruídos depois, como se moldassem enormes castelos de neve somente para pisoteá-los. Adiantar a desconstrução é negar que o próximo percorra por si próprio esse caminho.

A surpresa é um elemento vital em Thrones. Estar em uma guerra aberta ou velada, como é o caso de todos os personagens da série, é estar vulnerável a qualquer destino. Não há ninguém seguro, e Martin parece ser claro nesse ponto, e assim como acontecia em Breaking Bad, toda ação tem consequências, boas ou ruins. Bom, em Westeros a maioria é ruim.

O caso dos programas em streaming também não parece ter algum aspecto diferente a se considerar. O fato de escolher quando assistir o programa não muda a lógica dos comentários, já que a surpresa é sempre relativa ao expectador. Tudo depende do respeito. No Brasil os canais abertos sempre passaram as séries com um atraso bem grande em relação aos canais pagos, e mais ainda em relação à TV americana. Cada grupo de telespectador precisa ter seus próprios debates, como muitas comunidades virtuais fazem, ou dividir tópicos de discussão para quem assiste pela TV, quem baixa, e por quem já leu os livros. O bom senso é sempre simples.

Não há tempo específico para que obras “caduquem” e façam com o que spoiler seja liberado. É diferente na literatura, em que há os casos de domínio público, de histórias como Romeu e Julieta, em que a morte dos protagonistas não é novidade pra ninguém. Bom, não podemos falar em spoiler nesses casos, já que crescemos em uma cultura em que esse plot é inesgotavelmente explorado em vários produtos. E nessas obras a surpresa realmente não é elemento vital, diferente de enredos como o de Harry Potter, em que o final é algo valorizado e sobre o qual criam-se expectativas para o consumidor. Da mesma maneira como acontece com a pergunta sobre quem sentará no trono de ferro (se é que haverá um no final da história).

A resposta para essa nova polêmica, não tem nada de nova: é o sempre necessário bom senso. Clichês modernos não vão mudar o fato de spoiler ser desagradável. Ele até é usado como castigo, como no caso do professor francês, leitor das obras de Martin,  que punia os aluno bagunceiros de sua classe passando os nomes dos personagens que ainda iriam morrer em Game of Thrones. Participar de fóruns específicos e avisar quando for publicar algo que contenha spoiler é simples, eficiente e não impede ninguém de curtir a obra em seu tempo e na totalidade de aspectos que os roteiristas planejavam. Respeito é bom e necessário, até nos Sete Reinos.

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