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Review: Californication – No Way to Treat a Lady e The Raw & the Cooked

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Californication - No Way to Treat a LadySérie: Californication
Episódio: No Way to Treat a Lady e The Raw & the Cooked
Temporada:
Número do episódio: 15 (2×03)
Data de exibição nos EUA: 12/10/2008
Data de exibição no Brasil: 18/6/2008
Emissora no Brasil: Warner

Eles eram apaixonados, mas nunca se encontravam. À noite, ele se transformava em um lobo; de dia, ela em um falcão. Por mais que se amassem, nunca poderiam ficar juntos – culpa da maldição lançada pelo Bispo de Áquila. Este é o mote de Ladyhawke – O Feitiço de Áquila, um clássico juvenil de 1985.

Uma vida aparentemente normal se inicia. Becca vai estudar em uma escola particular; Karen recebe uma proposta irrecusável de trabalho; Hank começa a se envolver com seu novo livro, a biografia de Lew Ashby. Já foi mostrado na primeira temporada que a personalidade exuberante de Hank contagiava todos à sua volta. Seus amigos e familiares de perto o acompanharam em sua escalada rumo ao inferno. Sexo sem proteção, drogas ilícitas e envolvimentos questionáveis. Hank, quando não é o personagem principal de seus próprios romances, torna-se um observador inclemente da sociedade. O Zeitgeist – Espírito do Tempo. Desses tempos.

Mas, ao resolver escutar seus ídolos Warren Zevon e Tom Petty, que lhe estendiam suas mãos, ele conseguiu reunir sua família. O que acontece agora com aqueles que estão por perto? Charlie, após ser vergonhosamente demitido e se envolver com uma atriz pornô, e sua esposa, Marcy, começam a se envolver perigosamente com a cocaína. Fica subentendido que este já foi um problema recorrente. Sonja, em sua confusa transformação espiritual, se mostra dona de uma tremenda ingenuidade. Fica claro que Hank, no final das contas, era o único que tinha controle de tudo.

O grande teste é a atual convivência com Lew Ashby, seu outro lado do espelho. Tudo aquilo de que ele tenta se livrar volta embrulhado num bonito presente – um novo livro, promessa de uma excelente remuneração e mais prestígio; só que, ao abri-lo, a surpresa: a mesma vida desregrada que ele tenta deixar para trás. Ele próprio se vê na pele de Ashby.

Dono de uma personalidade complexa, Ashby acaba se revelando uma pessoa rancorosa e insegura. Um coração quebrado que, se por um lado o levou a ser quem é, por outro o destruiu emocionalmente. Ele mesmo cita “Tudo o que eu toco vira ouro, escreva sobre isso”, quando, na verdade, ele deseja uma explicação para a perda de sua Daisy Buchanan – a personagem de Fitzgerald pela qual Gatsby era apaixonado. Controlador e obsessivo naquilo que ele mais entende: fazer de uma banda um sucesso. Fica aí a referência explícita a Phil Spector, grande produtor de discos e inventor do wall of sound – uma parede sonora criada por uma câmera de eco. Diz a lenda que ele, ao produzir o disco “End of the Century” dos Ramones, apontou uma arma para Johnny Ramone até que ele tocasse o riff da maneira correta. Da mesma forma, Ashby recorre a armas para restabelecer a ordem, em um momento que define perfeitamente a personalidade de Hank: um moralista pervertido. Oximoro que ostenta as mensagens que a série sorrateiramente vem passando: uma moralidade torta.

Interessante como esse conservadorismo absurdo começa a influenciar os seus: Becca descobre que a vida na escola pode lhe trazer boas surpresas, na figura de um garoto que aparenta ser a sua alma gêmea; uma prostituta que lhe revela seus sentimentos; a redescoberta da paixão entre Charlie e Marcy, mesmo que impulsionada por muitas substâncias ilícitas. Apesar de não serem relações normais, o propósito de todos acaba sendo o mesmo. Ninguém quer ficar sozinho.

Porém, esse é Hank. Um imã de confusões, mesmo que inadvertidamente. Um trapalhão, que, apesar de ter o controle de sua própria vida, fica parecendo um malabarista mambembe quando tem de administrar sua família. Mesmo tendo razão na sua discussão com Karen, não consegue convencê-la, e pior, sucumbe à tentação do cigarro e volta a fumar. A recaída – metaforicamente – representa uma pequena cisão com sua família, e fisicamente, a derrota de sua força de vontade.

Seria muito pouco considerá-lo apenas uma pessoa irresponsável com atitudes infantis. Ele é incontrolável, livre como diz a letra de “Freebird” (Lynyrd Skynyrd) no início do episódio “The Raw & the Cooked”:

‘Cause I’m as free as a bird now,
And this bird you cannot change.
Lord knows, I can’t change.

Talvez por um ato de puro desespero ele, da pior maneira possível, tenta pôr um fim em tanta confusão. Quem sabe com o casamento? Tudo aquilo que Karen um dia sonhou e, por duas vezes, frustrou-a? Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, um jantar (que irá se mostrar trágico) a preparar e um pedido de casamento? Nada mais ao estilo de Hank, que mesmo assim continua com as referências pop a cada momento.

Largue esses vegetais podres (rotten vegetables).

E o que ele diz quando conversa com Karen sobre o pedido de casamento: isso é uma referência ao disco “Fresh Fruit For Rotting Vegetables” da banda de hardcore californiana (claro!) Dead Kennedys.

Vocês estão parecendo Sid & Nancy.

Referindo-se aos pegas à base de drogas de Charlie e Marcy na frente de sua casa. Sid Vicious era o baixista dos Sex Pistols, e morreu de overdose de heroína; sua namorada, Nancy Spungen, dizem, foi morta por ele com uma facada.

Damien! Nem sei se esse é o seu nome verdadeiro.

Falando com o namoradinho de sua filha. O personagem do famoso filme A Profecia chama-se Damien, e é tido como o Anticristo.

Californication - The Raw & the CookedO nome do próprio episódio, “The Raw & the Cooked”, é uma alusão ao segundo disco da banda Fine Young Cannibals. E faz todo o sentido neste episódio, já que ele se passa praticamente em volta da mesa, durante o tal jantar, que acaba se tornando uma mistura dos filmes A Festa de Babette com Um Convidado Bem Trapalhão.

Em A Festa de Babette há uma celebração desse tipo de reunião, em volta da mesa, onde os pratos são meros complementos de uma gama de sentimentos, discussões e descobertas; exatamente o mote do jantar da casa de Hank. A comida é um pretexto para que Mia, o nosso Convidado Bem Trapalhão, neste caso “convidada”, assuma a identidade de Hrundi V. Bakshi, personagem de Peter Sellers no filme de Blake Edwards. Assim como Sellers, ela se torna o centro das atenções, com suas frases irônicas, inconvenientes e mortalmente certeiras. O ator indiano destrói um set de filmagem. Mia destrói uma família com a revelação de que Hank é o pai do filho de Sonja.

Bye, bye, baby it’s been a sweet love.
Though this feeling I can’t change.
But please don’t take it so badly,
‘Cause Lord knows I’m to blame.
But, if I stayed here with you girl,
Things just couldn’t be the same.
Cause I’m as free as a bird now,
And this bird you’ll never change.
And this bird you cannot change.
Lord knows, I can’t change.
Lord help me, I can’t change.

“Freebird” abriu o episódio na forma de uma alegria ilusória, e fecha-o de maneira amarga. “Karen, foi um amor gostoso…mas eu não posso mudar. Esse pássaro, você nunca vai conseguir mudar” – imagina Hank. Karen joga a toalha. Ele é o lobo, Karen o falcão, e, apesar de se amarem, eles nunca se encontram por causa da maldição do Bispo de Áquila, aqui transformado em uma cidade: Los Angeles.

Séries citadas:

4 Comments

  1. Chelsea

    Osório, review mais que fantástica a sua. Acho que uma das melhores reviews que eu já li na minha vida! Citacoes perfeitas, alusoes maravilhosas, tudo ótimo! Parabéns!

  2. Marco

    Osório,
    Fica complicado ler outros reviews depois dos seus.
    Base, meu caro… poucos têm!

  3. Osório Coelho

    Bem, obrigado a vocês. É legal apontar algumas coisas no episódio que por vezes passam despercebidas.

  4. Fernando dos Santos

    Excelente review.

    Como já era de se esperar durou pouco a segunda chance de Hank e Karen, mas sabemos que ele não vai demorar para lutar por uma terceira.

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