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Reviews

Review: Californication – Hell-a Woman

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Californication - Hell-a Woman
Série: Californication
Episódio: Hell-a Woman
Temporada:
Número do episódio: 2
Data de exibição nos EUA: 20/8/2006
Data de exibição no Brasil: 13/11/2007
Emissora no Brasil: Warner

Uma das grandes vantagens de Californication é não tratar a cidade de Los Angeles como uma parte essencial da série, já que a estatura mítica da cidade, que abrange sua conhecida vocação democrata e libertária, poderia tirar o foco dos relacionamentos destrutivos e niilistas de Hank, já captados por sua filha, que, em uma surpreendente visão acerca da obra literária de seu pai, estabelece toda a conexão que perpassa a série: enquanto o exterior mostra um adulto que parece não ter crescido, sua personalidade se mostra muito mais complexa do que realmente aparenta. Vamos contextualizar.

Quando foi revelado que ele conheceu sua ex-companheira no lendário CBGB, palco do nascimento do punk, com os Ramones, do art-rock , com o Television e o Talking Heads, e de toda visão de cidade-símbolo do rock underground, simbolizada pelas sessões de leituras de poemas com a musa proto-punk Patti Smith, podemos remeter a história ao final dos anos 80 e início dos 90, visto que Rebecca, a filha dos dois, não deve ter mais que uns 14 anos de idade. Foi uma época esquisita, regada a quilos de cocaína e ectasy, certamente inspirados na crescente cena “Madchester” da Inglaterra, que não contribuiu em nada para o fortalecimento da relação entre Hank e Karen, filhos desse cenário hedonista.

Podemos definir, portanto, o resultado dessa – presumível – loucura, como um relacionamento que poderia dar certo se as metas comuns fossem estabelecidas como uma parceria, afinal a vida de um escritor de talento, mas com uma visão particularmente egoísta em relação à vida, não é das mais estáveis. Ainda mais com uma filha nova.

O interessante relacionamento entre pai e filha é assentado em uma admiração mútua, onde o pai, longe de fazer proselitismos, tenta se inserir na vida da filha de uma maneira torta: assombrando a vida da mãe e trazendo o caos à nova família, seja na forma de demonstrações atrapalhadas do seu amor pela mãe, ou se esforçando em arruinar seu novo relacionamento com Bill, que, diferentemente de Hank, traz estabilidade e monotonia na mesma proporção. Não me parece ser isso o que Karen procura, ficando explícito quando confrontada pela namorada do agente de Hank e pelas lembranças nada sutis de Chris Cornell, ex-vocalista do Soundgarden e do Audioslave e das ligações de Steven Soderbergh, diretor de Traffic, Onze Homens e Um Segredo e Gray’s Anatomy (??).

As referências pop vão se acumulando, trazendo à tona algo de metalinguagem, quando a sensacional banda Eagles of Death Metal é citada, e “confundida” no nome com os Eagles, aqueles do Hotel California, e na citação a “Dani California”, música dos Red Hot Chilli Peppers, compositores da própria “Californication”.

Californication - Hell-a WomanO sexo é tratado de uma forma esquisita já que, ao exemplo de Paul Auster nos seus livros “Leviatã” e “O Livro das Ilusões”, sempre redunda em confusões, ou seja, há um preço a ser pago. Uma criança que chora, uma rodada de vômitos, a filha que quase se perde em uma festa e o olho roxo. O sexo, ao contrário do que muita gente imaginava, acaba sendo mostrado de uma forma conservadora, o que me surpreendeu. Nas entrelinhas, a série acaba se mostrando familiar e careta. De uma forma estranha, mas quem disse que a vida de Hank é normal?

Séries citadas:

34 Comments

  1. Thais Afonso

    Gostei da interpretação e do texto Osório. Californication realmente é uma série estranha. Acho difícil captar todas as mensagens que ela passa, principalmente porquê ela tem referências que são completamente fora do meu universo.

  2. Paulo Antunes

    Osório, tocaste no ponto. A verdade é que mesmo com os melões da Paula Marshall, piadinhas com vômito e tal, Californication está se saindo bem moralista. Na verdade a maioria destes dramas adultos acabam sendo – o exemplo clássico é Sex and the City, que terminou com todas as mulheres bem casadas.

    Eu estou achando Californication divertida, mas frustrante.

    Não há nada de transgressora nela. Weeds é muito mais autêntica neste ponto.

  3. Marco

    Osório,
    Adoro a série, mas seus textos conseguem ser ainda melhores – falar do nascimento da New Wave americana e da Madchester é para poucos, até deu vontade de escutar Stones Roses e Happy Mondays, rs… Ah, ao falar do CBGB, Blondie é obrigatório!

    Discordo do Paulo, para variar. Weeds é pretensamente transgressora, no final das contas é muito hype para uma série apenas mediana.

  4. Paulo Fiaes

    Weeds parei no piloto

    e foi isso q eu tanto tentei insistir para alguns assistir a série, quem ver Californication pensa logo que é baixaria e bla bla bla, mas na verdade, a série é sobre um homem tentando se encontrar

    abraços

  5. Bruno Zamora

    Bom, legal e talz.. mas muito “acadêmico.” Simplificar seria uma boa.

  6. Silvia_05

    CARA, finalmente alguém pensa como eu!!! A série até tem seu charme, mas é BASTANTE CARETA. É até meio moralista. Só não vou me explicar mais porque tem gente assistindo pela primeira vez. E eu não quero estragar. Insisto, o que salva é aquele “corpinho” do Duchovny.

    Osório, teu texto não é pra iniciados. Ótimo. Tem que conhecer um pouquinho mais das coisas. Até da vida. Mas adorei saber que tu trata o Hank como um adultescente. Ele é mesmo.

    A única esperança que tenho com Californication é que Hank é realmente um “loser” (ou um cara normal), mas a sociedade americana não perdoa isso. Parabéns pelo texto.

  7. Giselle Bauer

    Muito o seu texto.Eu adoro a relação de pai e filha do Hank com a filha.Ah! e eu me amarro nela.

  8. Renata

    “… quando a sensacional banda Eagles of Death Metal é citada”
    Não preciso falar mais nada.

    É uma pena que vou perder o show deles na quarta!

  9. Giselle Bauer

    Corrigindo:Eu adoro a relação do Hank com a filha.
    Muito especial.

  10. Osorio Coelho

    Marco, sim Blondie é uma banda obrigatória, mas eu acho que o rótulo da New Wave (não em relação ao próprio Blondie) é meio limitador, concorda?

    Sobre os textos…bem, a idéia que eu tive quando surgiu a oportunidade de escrever sobre a série (na verdade eu queria escrever sobre qualquer coisa) incluía uma outra “visão” de review, não se limitando apenas a contar o episódio, mas estabelecer alguns paralelos que toda obra possui. E vejo isso como uma forma até mais completa de ver/ouvir/ler qualquer coisa relacionada à arte. Temos que entender que os roteiristas, atores, produtores, via de regra, nos oferecem muito mais do que apenas a experiência de assistir a uma mera série ou escutar um disco sem atenção.

  11. juliano cavalca

    “Não há nada de transgressora nela”

    Isso diz muito. O Hank é um cara torto que sente falta da família. É praticamente o oposto de grande parte das séries e filmes com temáticas similares.

  12. Marco

    Osório… Não sei, era uma cena, poderíamos chamar de pós-punk. Mas New Wave tem a ver, foi uma época de tentativas, descobertas… precisava de um rótulo – mesmo que limitador. De qualquer forma, foi o último grande movimento… depois vieram a Cold Wave, New Romantics , Class 86, Shoegazers , Britpop e tantos outros mas nada foi tão significativo quanto.

  13. Raquel

    Hank é alguém que está perdido e quer se encontrar mas ainda não conseguiu as forças necessárias. Eu gosto muitíssimo desse personagem. E diga o que disserem, a série é simplesmente sobre isso.

  14. Silvia_05

    E diga o que disserem, a série é simplesmente sobre isso.(2)
    Raquel, o teu SIMPLESMENTE já diz tudo. Também curto a série, mas é o lance de não esperar muita coisa.

  15. Lucas "Gandalf" Leal

    o Antunes falou bem, a série é a busca de certos coisas perdidos, a busca pela familia, pelo grande amor perdido, a volta de inspiração pra escrever e etc…e nesse ponto acaba sendo super careta, apesar de que no inicio a série ter se mostrado mais transgressora com o passar do tempo ela faz exatamente o inverso!
    e concordo nesse ponto Weeds é mto mais autentica…afinal uma traficante de drogas dona de casa não teria como não ser trangressora!hehehe

  16. Paulo

    Nunca me identifiquei tanto com um personagem. As situações do dia-a-dia de Hank são o resumo da minha vida. A não ser pela profissão dele de escritor que difere da minha. O resto sou eu: bebida, mulheres e confusões em excesso. Além da filha e o relacionamento com a ex, e a forma com que lida com o trabalho.
    Parece minha biografia…

  17. Maurício

    De novo o estereótipo do transgressor aceito, do sedutor rebelde, do bandido com cara de mocinho que come todas (aliás, é comido por todas) e acaba sozinho. Hank encarna a fantasia de poder continuar eternamente irresponsável, aprontando sem consequências (fuma, briga, dirige um carro batido e sujo, tem que ser convencido a trabalhar, fala o que lhe vem à cabeça etc)e o que acontece? Mulheres gostosas pulam na sua cama. Bom de ver, parece que Mulder finalmente tomou sua poção e agora ataca de Mister Hyde.

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