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Opinião

Quando paramos de falar sobre Girls?

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A série Girls da HBO começou em 2012 beirando ao brilhantismo. A forma como o roteiro conseguia obter um retrato tão excruciante sobre um dos mais dolorosos ritos de passagem da vida adulta, trazendo os questionamentos e as ânsias dentro do contexto sócio-cultural específico das personagens de 20 e poucos anos, era excitante e imperdível. Durante o ano de estreia, a criadora Lena Dunham foi alçada ao status de “voz de uma geração”, posto tão cobiçado pela sua personagem na série. Mas logo começaram a aparecer problemas. A recepção muito divisiva acusou a série de nepotismo (as protagonistas eram filhas de pais famosos) e de racismo (bizarramente, nenhum personagem negro fazia parte da Nova York de Hannah).

Lena Dunham logo tratou de inserir um personagem negro na segunda temporada (vivido por Donald Glover, o Troy de Community). Já que ele não durou muitos episódios, ficou no ar a sensação de que a moça estava só tentando amenizar parte da reação. Também durante o segundo ano, Lena não evitou riscos e realizou uma série de episódios experimentais, levemente inspirados na atmosfera da série Louie. Um deles foi o famigerado One Man’s Trash, no qual Hannah passa dois dias de amor tórrido com um médico que ela conhece por acaso, interpretado pelo galã Patrick Wilson. Os comentários da internet foram mais duros com Lena, pela forma física da atriz.

Se durante anos a televisão estabeleceu a dinâmica de maridos gordos ou não atraentes com esposas lindas, como Homer e Marge Simpson, Jay (Ed O’Neil) e Gloria (Sofia Vergara) em Modern Family e até mesmo a série de desventuras sexuais vividas por Louie com mulheres atraentes, por que deram tanto enfoque ao encontro sexual de Hannah e o médico? Outro momento que mexeu com o público foi um ato sexual realizado por Adam e uma namorada, fazendo chover reclamações na HBO sobre a cena ter sido gráfica demais. Mas isso era o que Girls costumava fazer. Enchia blogs e sites especializados com debates sobre a representação da sociedade da geração Y, e outros temas polêmicos, na televisão.

No quadro geral, o segundo ano da série teve ritmo e desenvolvimento de personagens comprometidos graças aos episódios experimentais. O tom mais melancólico também afetou a recepção, fazendo com que muitos largassem a série por ter se tornado “séria demais”. Lena, mais uma vez, resolveu anotar toda a recepção crítica e conseguiu conceber uma terceira temporada mais leve, divertida e ampla para o público. O problema foi que as situações – e, principalmente, as garotas do título – passaram a ficar gradativamente infantiloides e até aborrecedoras. A megalomania de Lena Dunham em tentar mostrar todas as mulheres do título como pessoas falhas chegou ao ponto em que elas se tornaram meras escadas para a protagonista egocêntrica, resultando em uma representação problemática de mulheres como descontroladas e irritadas.

O terceiro ano da série teve seus méritos. Graças aos personagens de Adam (Adam Driver) e Ray (Alex Karpovsky), o humor da série conseguiu ser retomado. São dois personagens humanos que foram bem trabalhados. Suas falhas são expostas com várias camadas de vulnerabilidade, sensibilidade e charme, qualidades surpreendentes para um slacker e um trintão que parece ter saído de algum filme do Woody Allen. É mais fácil conseguir estabelecer empatia por eles do que por Marnie, Jessa e Shoshana, por exemplo. Outro bom momento foi o excelente episódio Beach House, escrito pelo trio Dunham, Jenni Konner e Judd Apatow (que servem como produtores executivos). Contudo, algo estranho aconteceu. A série que desde o piloto causava polêmica e diversos comentários agora parece ter sumido da esfera de debates sobre a televisão.

Lena Dunham ficou tão focada em absorver as críticas em relação ao seu projeto, que acabou esquecendo da sua visão como criadora. A autora foi se deixando levar pelos comentários e resultou em uma temporada “qualquer coisa”. Perdeu o brilho, o interesse e até o foco. Inicialmente, a proposta da série era trazer um produto do movimento mumblecore, este que é um estilo do cinema independente americano que utiliza situações improvisadas e dilemas que podem ser resolvidos a curto prazo. O mumblecore pode sustentar muito bem filmes como Frances Ha, mas parece falhar ao tentar dar frescor a uma série duradoura com vários episódios.

Sabe aquele ditado cafona “Quem quer agradar a todos não agrada a ninguém”? Ao que parece, a voz da geração ficou muda.

* * *

A quarta temporada de Girls estreou no último domingo, na HBO. Texto gentilmente cedido pelo weblog Bolas na Parede.

Séries citadas:

Futuro escravo da comunicação e mau humorado em todas as horas. Começou a ver TV com Friends (assim como 97% das pessoas), apesar de ter formado o seu caráter com as reprises de Seinfeld. Ama Six Feet Under e outros clássicos da HBO, e se considera cético demais pra ver séries de fantasia.

2 Comments

  1. Paullo Mendonça

    Parei de ver na terceira, na verdade só assisti ao primeiro episódio, no inicio tive problemas com a personagem de Lena (Achei muito chata), mas resolvi continuar assistindo e acabei amando, porém meu problema com a série é o falta de amadurecimento das personagens; Chegou um ponto que eu me perguntei o porque que eu ainda via Girls e foi nesse mesmo dia que eu parei e estou muito feliz obrigado! Para quem assiste e gosta, sucesso eu pessoalmente detesto mesmo um dia já tendo amado.

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