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Primeiras Impressões – Penny Dreadful

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Antes de apertar o “play” para assistir Penny Dreadful, hesitei. Respirei fundo, uma, duas vezes, e temi pelo que estava por vir. Não que as séries de terror me assustem de maneira tão execrável, tão insuportável, não me entenda errado. Um dos maiores prazeres da minha vida é justamente contemplar uma boa – e temível – história de horror. Meu medo era de não gostar daquilo que assistiria nos próximos cinquenta minutos, diante de toda a expectativa que cultivei, por meses, em relação àquilo. Uma decepção me parecia insustentável. E aposto que não estava sozinha nisso.

Penny Dreadful é criada e escrita por John Logan, que foi indicado ao Oscar de melhor roteiro três vezes – pelos filmes A Invenção de Hugo Cabret, O Aviador e Gladiador. Ele produz a série em parceria com Sam Mendez, premiado pela Academia como melhor diretor em Beleza Americana. Títulos de deixar a gente impressionado. Na frente das câmeras, o elenco não é mais modesto: Josh Hartnett, conhecido pelo trabalho no cinema, como no clássico de guerra Pearl Harbor, é o grande protagonista masculino, enquanto a lindíssima Eva Green (de Sombras da Noite) é a heroína.

Já na cena inicial do primeiro episódio, a gente leva um grande susto – que não vou narrar aqui por um só motivo: não quero que aqueles que ainda não assistiram ao capítulo sejam privados de deliciosa experiência. Em seguida, somos apresentados a uma abertura provocativa. Cobras, aranhas, crucifixos e insetos que devoram um cadáver povoam a tela…  a mão ensanguentada segura uma tesoura; um corpo é aberto com o bisturi…. uma xícara cheia de sangue se estilhaça no chão enquanto o morcego, vejam a ironia, levanta voo. Essa abertura só deixa claro que a atração não vai se intimidar em mostrar nada (ou tudo), não poupará esforços para causar calafrios no espectador. Aos corajosos, é hora de, finalmente, mergulhar nesse mundo sombrio.

“Penny Dreadful”, para quem não sabe, era o nome dado a publicações baratas e sensacionalistas que circularam na Era Vitoriana. Os pequenos jornais, de poucas páginas, continham histórias de terror seriadas, publicadas semanalmente, e que, com bastante violência, serviam para entreter os jovens operários da época. É desse universo literário que a série do Showtime tira suas inspirações e apresenta alguns dos célebres personagens de terror criados no século 19.

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Josh Hartnett é Ethan Chandler, um americano que trabalha em um circo recém-chegado a Londres. Ostentando uma peruca que chega a causar vergonha alheia, o personagem exibe a mira invejável, ao usar o revólver, diante do (estupefato) público presente. Ethan tem olhos estreitos, um cavanhaque perfeitamente delineado e cabelos esvoaçantes. Ares de Don Juan. Sensação causada, especialmente, pela fala cheia de marra, que nos dá a impressão de que ele está constantemente flertando com quem conversa. É, também, logo no início do episódio, que vemos Ethan amar a primeira mulher na história, cujo nome ele nem se dá o trabalho de perguntar. Ele jura a ela que conhecê-la tornou sua viagem especial, mas que “infelizmente, teria que partir para Paris em seguida”. Talvez fosse até verdade, mas os planos do rapaz seriam interrompidos por Vanessa Ives.

Vanessa é interpretada pela francesa Eva Green. Ela é uma mulher forte e misteriosa, lê o tarô e possui algum talento para com as forças sobrenaturais. Sem revelar exatamente suas verdadeiras intenções, ela contrata Ethan para um trabalho na mesma noite – algo que ele sabe somente que pode envolver um ato ilegal. Não que ele se importe. A partir daí, a gente consegue entender melhor do que Penny Dreadful se trata. Uma sinopse que, até então, era abstrata na cabeça dos espectadores. No fim das contas, Penny Dreadful é sobre algo bem simples: somos convidados a conhecer uma Londres do século 19 dominada pelas forças ocultas, onde ninguém está seguro. E é isso.

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Timothy Dalton – conhecido por interpretar James Bond nos filmes da década de 80 de 007 – é Sir Malcolm Murray, um homem influente que está atrás da filha. Ela desapareceu já faz algum tempo e foi levada por criaturas que habitam o submundo de Londres. Ele conta com a ajuda de Vanessa e, de início, a gente não entende qual é exatamente a ligação dos dois personagens. Quando decidem entrar um um beco cheio de sangue e cadáveres, eles precisam de Ethan – e das armas dele – para dar cobertura diante de todo o perigo iminente. E, aí, conhecemos algumas figuras horrendas, dessas com uma grossa camada de pele, nenhum cabelo no corpo e quase invertebradas. Em determinado momento, ao constatar o ambiente macabro em que se encontrava, Ethan dispara um desesperado “Jesus Cristo!”, que, no contexto, chegou a ser cômico, mostrando que a série tem, sim, uma pitada de humor.

As emoções não são apenas instigadas por elementos visuais. Como eu disse anteriormente, a série traz alguns personagens famosos da literatura de horror (Drácula e Dorian Gray não apareceram nesse primeiro episódio, mas a presença deles está garantida na história). Por isso, quando Sir Malcolm vai atrás de um médico para analisar um cadáver e o dono do lugar diz “Veja se meu assistente pode atendê-lo”, a gente fica arrepiado – e empolgado! – ao reconhecer, ainda de costas, a célebre figura do Dr. Victor Frankenstein (interpretado por Harry Treadaway). Ele é um jovem arrogante, cheio de si, mas cuja ânsia pelo conhecimento não o permitirá ficar de fora dessa aventura de vida ou morte. Sir Malcolm o convida para integrar o time que irá lutar contra as forças malignas e recuperar a filha dele. Victor faz charme no começo, mas acaba por se render à proposta irrecusável.

O Victor Frankenstein da série também trabalha na experiência em dar vida a um corpo que já estava morto. Mas as coincidências com o livro acabam aí. No seriado, a criatura criada por ele não é tão horrenda e desprezível – nem tem tantos metros de altura ou se afasta da aparência humana – como aquela descrita por Mary Shelley. Victor também não abomina sua criação, como na literatura. Pelo contrário. Ao perceber que, quase por acidente, sua experiência ganhou vida, o personagem parece muito mais emocionado com o acontecimento do que assustado. Ele não consegue conter as lágrimas diante da conquista e, numa cena linda e sensível, a criatura chega a roubar-lhe uma lágrima do rosto e colocá-la no seu, como quem ainda está descobrindo o mundo. Aí, eu percebi que Penny Dreadful não é uma série feita apenas para arrepiar até o último fio de cabelo, como pensei lá no início com aquela abertura provocante – o episódio tem até momentos bem “parados”. A série é, na verdade, uma montanha russa de emoções, como a própria vida…. e tudo finda com a morte (ou não).

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Resumindo, Penny Dreadful é uma série elegante, provocativa e com qualidade. Os cenários são detalhistas, bem como os figurinos, e todos os atores são bonitos – mas não de uma beleza comum, óbvia. Praticamente todos os protagonistas são morenos de olhos claros, nesse contraste, e possuem uma imagem imponente. Eva Green domina todas as cenas em que aparece, é verdade, mas isso não diminui a força dos outros personagens. O Josh Hartnett sempre me deixa na dúvida e isso não é particular à série. Nunca sei se ele é excelente ator ou é ruim demais, porque ele é um tanto inexpressivo, beira à falta de carisma – e consegue ser, ainda assim, irresistível. Faz sentido? A narrativa da série é instigante, prende a gente durante o episódio inteiro, embora tenha, sim, momentos de pouca ação. Diálogos feitos para impressionar – como aquele que Sir Malcolm constata “o momento em que você percebe que não é mais o caçador, você é a caça” – aparecem aos montes e, por vezes, dificultam nosso entendimento do enredo. Nada muito grave. A série é toda poética, bem pensada, bem feita. Ah! Nem mesmo as cenas de nudez foram censuradas – foi tudo bem comedido, mas estava lá. E sabe a filha desaparecida do Sir Malcolm? Então, é uma velha conhecida nossa…

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Bem… Quando eu  digo “cabelos esvoaçantes”, I mean it:

 

Em tempo: O Showtime liberou a série mais cedo, no Youtube, mas a estreia oficial, na TV americana, acontece apenas no dia 11 de maio. No Brasil, a atração será exibida pela HBO a partir do dia 13 de junho, às 22h.

Séries citadas:

É jornalista formada pela Unesp e pós-graduanda em Gestão Cultural. No TeleSéries, escreve mensalmente a coluna Estilo. Aficionada pelas histórias de terror, sobrenaturais e de mistério, também não dispensa aquela comediazinha romântica... Pushing Daisies, Jeannie é um Gênio, A Feiticeira, Riget, Lost in Austen, Wonderfalls, Samantha Who?, Copper, Harper's Island e Hannibal estão entre suas séries preferidas de todos os tempos! :)

51 Comments

  1. vanderson

    Gostei mtu da serie e de muita qualidade e sem duvidas a que mais amei asistir ate agora é só uma grande pena ela ter pouquíssimos episódios e e somente duas curtas temporadas eles erraram so nesse detalhe e perderam muito com isso

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