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Especiais Opinião

O caminho de Aaron Sorkin até ‘The Newsroom’

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Estreia neste domingo nos EUA a nova série da HBO, The Newsroom, criada pelo premiado roteirista Aaron Sorkin, indicado duas vezes ao Oscar, e vencedor do prêmio de melhor roteiro adaptado por A Rede Social, além de colecionar vários Emmys em sua estante.

Como poucos, Sorkin conseguiu criar sua própria marca registrada. O roteirista é conhecido por escrever diálogos rápidos, que são desenvolvidos enquanto os personagens caminham, filmados em cenas longas de tomada única. O estilo foi batizado de walk and talk (caminhe e converse) e é facilmente identificado na maioria de suas obras. Outra característica marcante é o constante interesse em mostrar o que acontece nos bastidores de histórias já conhecidas. Escreveu sobre os bastidores de programas de TV nas séries Sports Night e Studio 60. E a TV é também o ambiente da sua nova série, que segundo o próprio Sorkin, pode ser entendida como uma terceira parte de uma história que ele insiste em contar. Talvez por isso, sempre é alvo da crítica especializada, que se sente ameaçada ao ver seus segredos tão expostos.

Bastidores também foram o foco da série The West Wing, que exibia o dia-a-dia na ala oeste da Casa Branca; e do filme A Rede Social, que contou a história por trás da criação do Facebook. Os personagens de Sorkin são pessoas determinadas que sofrem o tempo todo para decidir se priorizam a vida pessoal ou profissional. Mas talvez sua marca mais forte seja o tom extremamente crítico que assume no seu texto, defendendo uma posição política independente – geralmente pendendo para esquerda. Patriota, mas consciente dos problemas de seu país, sempre põe o dedo na ferida mostrando os principais problemas da sociedade moderna.

The Newsroom chega a TV com bastante expectativa, principalmente por ser o seu primeiro trabalho em um canal de TV paga, onde provavelmente terá mais liberdade para abordar temas polêmicos, mas principalmente por depender menos dos números de audiência para se manter no ar. Outra curiosidade é que, o último episódio da primeira temporada de suas séries geralmente recebe o nome What Kind of Day Has It Been, algo do tipo “Que dia é esse!”. Com tudo que já foi dito, não fica difícil imaginar o que esperar da sua nova série, mas vale relembrar suas principais obras, que com certeza servirão de norte para o novo trabalho:

Sports Night: A série foi ao ar no final dos anos 90 e teve duas temporadas, sendo a primeira empreitada do roteirista na televisão. Protagonizada por Peter Krause (Six Feet Under, Parenthood), Josh Charles (The Good Wife) e Felicity Huffman (Desperate Housewives), a série mostrava os bastidores de um telejornal esportivo da fictícia emissora americana Continental Sports Channel, a CSC. Apesar do programa ser focado em apenas uma editoria jornalística, seu publico alvo não era limitado a amantes de esportes, pois Sorkin sempre se preocupava em aprofundar seus personagens, seja abordando preocupações do cotidiano – em determinado episódio, a personagens de Huffman passa o dia inteiro decidindo se compra ou não determinada máquina fotográfica – ou seja tratando de assuntos mais complexos, como no dia em que um dos âncoras do telejornal é obrigado pelos executivos da emissora a fazer uma retratação em rede nacional sobre um comentário mal interpretado.

The West Wing

The West Wing: Série aclamada pelo público e pela crítica, centrada no presidente dos Estados Unidos e sua equipe. Com sete temporadas, foi um marco na TV, sendo uma das mais premiadas da história (a primeira a ganhar quatro prêmios Emmy consecutivos de melhor drama). Catapultou a carreira de Sorkin, que a essa altura já era conhecido pelos bem recebidos filmes Questão de Honra e Meu Querido Presidente. A série tinha um tom patriota bastante forte, mas sem deixar de ser crítica. Tratava de assuntos extremamente delicados de forma majestosa, chegando até a fazer um episódio especial sobre o atentado de 11 de setembro que, feito às pressas, não foi uma unanimidade. Até hoje The West Wing é conhecida por ter conseguido imprimir na TV aberta elementos e qualidades de uma obra de TV fechada, sem com isso espantar a parte mais popular da audiência. West Wing consolidou as características de Sorkin: o walk and talk, os diálogos rápidos e cômicos, as tomadas longas e, principalmente, os discursos críticos marcantes. Apesar de abordar um tema tão controverso (e difícil) como política, a série se mostrou um ótimo drama, até mesmo paras os telespectadores que não tem muita paciência para o assunto. Infelizmente, Sorkin deixou a série no final da quarta temporada, segundo informações oficiais, por divergência criativas com a produtora. A partir daí a série assumiu novas nuances, mas não chegou a perder a qualidade.

Studio 60 on the Sunset Strip: Ambientada nos bastidores de um programa aos moldes do Saturday Night Live, é uma das séries, não só do autor, mas da TV de forma geral, que mais gerou discussão. Odiada por uns e cultuada por tanto outros, sofreu duras críticas e amargou baixos números na audiência. Mesmo com um elenco de forte apelo popular – Matthew Perry e Amanda Peet, por exemplo – Studio 60 não conseguiu conquistar o grande público. Muito disso, se sabe, ocorreu porque os críticos se sentiram ameaçados com o que era mostrado. Outro fato que contribuiu para o fracasso da série foi a presença de atores conhecidos por seus papéis em comédia, representando um drama. Apesar do ótimo desempenho de todos, o público que esperava uma comédia mais explícita se sentiu “enganado”. Fato é que, para os fãs do estilo de Sorkin, a série é um prato cheio. Apesar de assumir um tom mais leve, pendendo um pouco para comédia e até para o romance, Studio 60 manteve o tom crítico do autor, abordando assuntos polêmicos como a presença dos EUA na guerra do Afeganistão, racismo, religião e diferença de classes, todas tratados de forma indefectível. Cancelada com apenas uma temporada, a série sempre é lembrada pelos fãs, e volta e meia aparece em rankings de melhores séries.

A Rede Social: mais conhecido por seu trabalho em TV, apesar de ter escrito dois filmes bem recebidos, Sorkin ainda não tinha tanta representatividade no cinema. Convidado por David Fincher para adaptar o livro The Accidental Billionaires sobre a criação do facebook, teve aí sua oportunidade de firmar seu nome na tela grande. O filme foi sucesso de crítica e público, foi indicado a oito Oscars e ganhou três, entre eles o de melhor roteiro adaptado. Novamente, as principais características do roteirista estavam presentes, apenas deixando de lado a crítica política, para dar lugar a um questionamento mais recente, a transição da juventude para a fase adulta.

Moneyball: Segunda indicação do Sorkin a melhor roteiro adaptado, talvez seja a obra que mais se diferencia das demais. Assumindo um tom mais intimista, aqui a urgência presente em seus diálogos dá lugar à calma e à paciência. O filme mostra os bastidores de um time de beisebol, e as dificuldades do seu técnico para reerguer a equipe. Aí é onde mais se aproxima das suas obras-irmãs, mostrando um líder lutando para manter a confiança de seu time.

Conhecendo o padrão Sorkin de qualidade, fica fácil ter a certeza de que teremos algo muito parecido com o que já foi visto. E isso não tem como dar errado. Não tem como não ser no mínimo espetacular. Não se enganem pelas críticas negativas, pois elas são extremamente parciais. Prestem atenção em cada diálogo. Cada frase é cuidadosamente pensada e extremamente importante pra construção da história. Agora é só esperar e apreciar este que, com toda certeza, será um dos destaques do ano.

Colaborou José Antônio Picelli.

Séries citadas:

Analista de Sistemas, mas só porque assistir séries não dá dinheiro. Fã de Six Feet Under, Breaking Bad, comédias da NBC, Happy Endings e qualquer coisa que Aaron Sorkin escrever. Não tem vergonha de falar que gosta de Grey's Anatomy e Revenge.

28 Comments

  1. Igor

    Ótimo texto thiago!
    O ódio que a galera lá fora tem por Studio 60 e The Newsroom é muito absurdo! parece até q o sorkin cagou no café da manhã deles hahaha

    Até hoje só moneyball me decepcionou de resto o Aaron Sorkin é puro amor <3 

  2. Tiago Oliva

    Pois é Igor, hoje mesmo li um texto no Vulture onde o autor reclamava que os personagens de Studio 60 eram sem graça. Ora, a série nunca teve a intenção de ser engraçada. Pelo menos dessa vez, como a série está na HBO, não precisamos nos preocupar com eles. Obrigado pelo comentário!

  3. Dierli M Santos

    aquele texto foi ridículo. nunca me irritei tanto. 

    se eles queriam uma comédia, estavam vendo a série errada.
    e claro, tem a desculpa de que a série dentro da série não era boa. mas e daí?

    ótimo texto!

  4. Tiago Oliva

    Brigadão Di! Mas eu até gostava das Sketches de Studio 60. A do nicholas cage era ótima. E a Harriet imitando um golfinho, eu sempre ria.

  5. Maria Samara

    Pelo apanhado da carreira do Sorkin, Tiago! Já conferiu Newsroom? A maioria da crítica americana tá sendo negativa mesmo, mas noto uma  certa má vontade com o sorkin way of life. Tenho algumas ressalvas, mas gostei bastante do piloto. Sou fã do Sorkin e suas 3 séries estão no meu top 10, portanto, estou botando fé que Newsroom vai fazer jus a.esse legado. 

  6. Tiago Oliva

    Obrigado pelo comentário, Maria! Vi o piloto sim, e gostei MUITO! Pode ser um pouco cedo pra dizer isso, mas pra mim já é a melhor estreia do ano. Mas tenho que admitir que achei algumas coisas meio breguinhas e alguns clichês, mas nada que diminua a série, como os críticos estão dizendo.

  7. Maria Samara

    Sim, as críticas foram exageradas, a maioria pelo menos. Embora eles tenham visto 4 episódios, no entanto, pelo o que eles acharam de Studio 60, já perderam a credibilidade, rs

  8. Paulo Serpa Antunes

    Eu sou um dos que achei Studio 60 superestimada. O Sorkin foi panfletário demais na segunda metade da temporada. Mas ele tem crédito, todo mega produtor erra a mão uma vez na vida. Agora vai dar certo, tenho convicção que dará.

  9. Dierli M Santos

    Paulo, mas acho que tem uma diferença aí. Os críticos (e muitos que comentam nessas críticas) odeiam MESMO studio 60 e eu nunca entendi. A série não foi perfeita, não tão boa quanto west wing, mas eles falam como se tivesse sido algo horrível. Consigo lembrar de dez séries piores esse ano, mas eles ainda não esquecem essa série.

    Frequentemente vejo, no twitter, um crítico gringo falar mal de uma série e outro usuário responder “você não está falando sobre s60?”.

    eu queria mesmo entender o pq desse ódio.

  10. Tiago Oliva

    Eu ficaria decepcionado se ele não tivesse sido panfletário, mas entendo seu ponto de vista. Acho que o único erro de Studio 60 foi a divulgação feita pela NBC. As pessoas esperavam ver uma coisa e encontraram outra. Entendo que o principal motivo de ele ter escolhido os bastidores de um programa de comédia, que tem por característica fazer sátira principalmente de situações políticas (só pra citar como exemplo, temos a Sarah Palin da Tina Fey em Saturday Night Light), foi poder usar isso como veículo de suas críticas. Em qualquer lugar do mundo, os comediantes são a principal voz crítica da política. Pelo menos foi assim que eu entendi a escolha dele. Talvez agora, tendo um telejornal para fazer seu discurso, essa intenção tenha ficado mais clara e evitará mal entendidos.

  11. Dierli M Santos

    A outra explicação que alguém comentou (não lembro mais quem): vai ver os americanos aceitam ser chamados de idiotas por pessoas da casa branca, mas não por pessoas da tv.

  12. acerola

    já amo newsroom e ainda nem assisti.
    acho que os americanos deviam se sentir mais ofendidos pelo chuck lorre do que pelo aaron sorkin.

  13. Bruno

    Outro trabalho de Sorkin foi a série Chicago Hope, que concorria com ER no inicio. Durou poucas temporadas e adoraria assisti-la novamente, se achasse na internet.

    Um fato que não comentou foi que ele costuma fazer pontas em suas produções.

  14. Scott

    Tenho receio de admitir: nunca vi uma serie do sorkin (erro a ser corrigido neste ano, com todas as series citadas). Mas já amo o trabalho dele em Social Network <3 ótimo post Tiago e a colaboração do Picelli também ! 

  15. biancavani

    Este artigo é um belíssimo exemplo do que seja pensar e escrever bem. Perfeito! Congrats, Tiago!

    Essa questão que Tiago apontou  sobre pessoas que assistem a deteminada série pensando que, por exemplo, seja comédia, mas ela é drama, e depois reclamam, arrasam com ela, é abominável! Sem contar que é um atestado, com firma reconhecida, de burrice. A esse respeito o caso de Lost é emblemático. Sabe, “tipo” detonar o Proust porque Em busca do tempo perdido tem muita lembrança para pouca ação; ou o Joyce, porque o dia de Ulysses é muito comprido, rsrs.

    Digno de nota é também o modo de Tiago não pôr os americanos todos no mesmo saco. Há os que gostam de filme com Chuck Norris, filmes de Spilberg, reality shows, Six feet under… Eles não são só comedores de hamburger: tem cada puta restaurante por lá, uau! Há os que gostam de filmes a la Chuck Norris, os de Spilberg, reality shows, In treatment (sim, esta série foi escrita por um judeu de Israel, mas os judeus predominam na indústria cinematográfica americana), Six feet under. Ou seja, há muitos modos americanos de ser.  Não nos esqueçamos de que foram americanos que escreveram essas mesmas séries, filmes, que depois dizemos “ah, americano não gosta disso”.
    Aliás, a consequência a que leva esse tipo de raciocínio seria a de que brasileiros não gostam de séries como, por exemplo, West Wing, pois a visão estereotipada de brasileiro é a de que só gostam de bunda, caipirinha, futebol, carnaval. Não é mesmo?

  16. Tiago Oliva

    Muito obrigado mesmo, Bianca! Acho de uma ignorância tremenda generalizar o que quer que seja, principalmente uma população tão grande como a dos EUA. 

  17. Tiago Oliva

    Sério, Scott? Cara, vc vai gostar TANTO de Newsroom. Aí quando acabar a primeira temporada veja Studio 60, e depois The West Wing.

  18. FlaviaRibeiro

    Adorei tudo, Tiago!
    The West Wing é Top 3 na minha vida! Estou revendo tudo agora – no momento, no início da quarta temporada – e impressionada como é ainda melhor do que eu lembrava.
    Sports Night e Studio 60 também são coisa de gênio. Espero ansiosa por Newsroom.

  19. Tiago Oliva

    O que eu acho incrível em The West Wing é que os problemas da série ainda são problemas hoje, e provavelmente serão por muito tempo. Dia desses revi um episódio que trazia uma discussão sobre fontes de energias renováveis, por causa da Rio+20. O episódio ainda é mais esclarecedor que 70% das matérias que eu li nos últimos dias sobre o assunto. Obrigado pelo comentário, Flávia!

  20. Antonio L Jr

    Excelente texto, Tiago! E os comentários estão fantásticos também, e ressaltam a minha opinião sobre Sorkin: Ele faz a audiência pensar. E na tv aberta americana isso é terrível…Por vezes parece que eles não gostam de ser desafiados. Mesmo no Sports Night ele brincava com a audiência, dando relevância inusitada em coisas fúteis, e em West Wing ele lidou com simbolismos fortes, como no final da segunda temporada com aquela cena do presidente, encharcado, com a bandeira ao fundo, ao som de “Brothers in arms”. Ele antecipou idéias, e teve sangue frio no episódio “Isaac and Ishmael”, que foi ao ar após o 11 de setembro.
    Em Studio 60 ele tentou fazer o mesmo com o episódio dos músicos(não lembro o nome), mas nesse ponto a série já era vítima da própria trama que contava; e a baixa audiência, somada ao pouco interesse da rede em salvar o produto, acabaram com a série que chegou mais perto de contar como realmente é a tv por trás das câmeras. 
    Tenho uma expectativa louca por The Newsroom, e me assusta que a produção canadense de mesmo nome comece de forma muito parecida, mas um fato é crucial: HBO. Se a gente parar para ver as produções recentes exibidas por lá, dá para ficar animado, apesar das short seasons…
    Outra coisa: alguém pelamordedeus vai deixar escapar aí onde conseguiu ver o piloto???
    Abraços, me perdoem estender tanto…

  21. biancavani

    Torrentz (link do epi, em avi); addic7ec (legenda) Ou, em rmvb: amoséries; séries free (com legendas embutidas). Enjoy, caro Antonio! (se bem que, nestas alturas, você já deve ter visto).

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