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Opinião

Investida da Rede Globo em séries resulta em safra funcional

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Artigo de Fernando Collaço comenta as séries que a rede Globo exibiu ao longo deste ano

Aliando o consagrado padrão de qualidade de suas produções a uma pluralidade de recortes temáticos e estilísticos, focando principalmente o público segmentado que acompanha sua programação, a Rede Globo de Televisão trouxe para sua grade de 2010 uma investida no campo das narrativas seriadas, considerando aqui somente as séries, que resultou em uma safra diversificada e funcional, com a volta de roteiristas e tramas já conhecidas, que merece destaque no conjunto das produções do presente ano, apesar deste ainda guardar novidades nessa área, como por exemplo, a estréia da série Afinal de contas, o que querem as mulheres? com direção geral de Luiz Fernando Carvalho.


Investindo novamente nas situações tragicômicas do cotidiano de um casal, como em Os Normais, Fernanda Young, auxiliada por José Alvarenga Jr. e Alexandre Machado, voltou à grade televisiva da Rede Globo com Separação?!. Contando com a já característica linguagem despudorizada, que serviu de apoio para o esmiuçar de cada traço do cotidiano, colocando-nos como espectadores privilegiados de situações típicas de nossa própria realidade, a fórmula funcionou mais uma vez, e, baseada em uma produção simples, mas muito bem resolvida, alcançou números significativos no Ibope.

S.O.S. Emergência
Seguindo a veia cômica, destaca-se a produção de S.O.S. Emergência, que investiu no cotidiano nada convencional de um hospital, onde os limites dos padrões naturalistas recorrente das produções seriadas são escancarados através de situações inusitadas e impensadas dentro de uma instituição de saúde. Nesse sentido, a comédia lembra, dentre muitas outras, a série Riget, do diretor Lars Von Trier, onde médicos, funcionários e pacientes compõem um cenário atípico, calcado pelo terror sobrenatural, onde pelos corredores do hospital encontrávamos curandeiros religiosos, espíritos zombeteiros, dentre outros, sempre inseridos em situações cômicas e inusitadas, ou ainda a premiada série norte-americana Scrubs, veiculada aqui no Brasil pela Sony.

Força-Tarefa e Na Forma da Lei
Na esteira das produções, o recorte também contemplou a linha policial/investigativa, onde Força-Tarefa e Na Forma da Lei foram as atrações principais, tendo a primeira dado prosseguimento com sua segunda temporada e a segunda feito sua estréia. Força-Tarefa, de começo tímido, que aos poucos foi engrenando e ganhando desenvoltura, manteve bons índices de audiência para o horário, mas, apesar disso, continuou apostando em alguns lugares-comuns, um tanto quanto artificiais, que deixaram a sensação de que a série poderia ter se arriscado um pouco mais na trama vivida pelo tenente Wilson, nas escolhas estilísticas de direção ou mesmo nas atuações, muitas vezes rasas. Já Luana Piovani e Ana Paula Arósio protagonizaram Na Forma da Lei ao lado de alguns outros globais já conhecidos. A série trouxe, no mesmo caminho da anterior, situações clichês e lugares-comuns, mas conseguiu manter a linha de tensão e agradou boa parte do público-alvo, resultando em bons índices de audiência, como o episódio final que obteve uma média de 17 pontos.


Substituta do horário ocupado pela Na Forma da Lei, a série A Cura trouxe para a tela uma trama com resquícios de telenovelas da própria emissora que já trabalharam a temática espiritual sob diferentes vieses e, aliado a isso, apresentou um mergulho cenográfico impressionante na cidade mineira de Diamantina. Na esteira das produções do ano, esta também conseguiu apresentar bons índices de audiência. Causou ainda alguma polêmica ao adotar um final aberto, deixando o telespectador na expectativa por uma eventual segunda temporada.

A Vida Alheia
Deixando de lado a série A Vida Alheia, série que não assisti e logo não tenho competência para comentar, percebe-se um boom de séries em curto espaço de tempo, algumas com apenas oito episódios e que, atuando dentro de gêneros bem demarcados e seguros, como o policial e a comédia, seguem uma linha um tanto quanto conservadora em sua produção. A opção pela manutenção de modelos com o investimento em novas roupagens garantiu um retorno comercial seguro para a emissora e ao mesmo tempo agradou boa parte do seu público cativo. Apesar da pluralidade, viu-se muita pouca inovação e experimentação em qualquer etapa da produção dessas séries, que acompanharam basicamente a linguagem televisiva, muito bem operada pela emissora, aliada à narrativas muitas vezes pré-existentes nas grades de emissoras de outros países.

As minisséries, na tradição dos formatos narrativos seriados, são tidas, e aqui considero os estudos de Anna Maria Balogh presentes em seu livro O discurso ficcional na televisão, como espaços de experimentação por excelência, onde são frequentes os momentos em que podem testar os limites do televisual e enfrentar o desafio de inovar a linguagem ou de ultrapassar as próprias servidões da linguagem televisual. Segundo a autora, as mesmas possuem acabamento formal mais bem trabalhado, possibilitam o estabelecimento de marcas de autoria e apresentam estruturas narrativas mais coesas, devido ao menor número de capítulos e ao maior tempo de realização. Normalmente só vão ao ar quando estão terminadas ou quase terminadas, o que resulta na menor possibilidade de manipulação do programa durante sua exibição, ao contrário das telenovelas, suscetíveis ao comportamento da audiência.

Na categoria subjetiva do gosto, a questão maior que levanto, e aqui falo tanto como espectador e pesquisador, é a de que falta uma inovação, um andar limítrofe entre o acerto e o erro que saia do convencionalismo de uma tradição da teledramaturgia estabelecida através das telenovelas, tão fortes dentro da própria emissora. O que de diferente apresenta Na Forma da Lei que outras tantas séries, igualmente rasas, que se multiplicam aos montes, também não oferecem? O humor de S.O.S. Emergência funciona bem com determinado público, mas também não segue ele na linha de outras produções já consagradas? Não são algumas dessas séries apenas ecos de modelos bem-sucedidos?

Esse andar tênue, que busca o novo em meio ao convencional pode nos presentear com muita coisa diferente e igualmente funcional tanto do ponto de vista econômico, como do entretenimento. A mistura da ficção com o documentário pode trazer formatos até então não explorados, a investida na literatura também pode resgatar grandes textos canônicos e trazer diferentes formas de se corporificar o texto escrito, ou mesmo a própria ficção pode apostar em roteiros novos que se arriscam em outras temáticas ainda não tocadas, aliando regras dos métodos convencionais às subversões artísticas.

Apesar de me entreter também com essas séries e considerá-las de uma técnica precisa, acho de primordial importância que sejamos presenteados mais freqüentemente com minisséries provocadoras, mesmo que bebam em fontes já consagradas, mas que partindo delas, criem produtos diversificados que promovam um debate entre os telespectadores, que os façam sair da posição de meros receptores de velhas fórmulas que apenas investem em outras roupagens e perpetuam um fluxo que não promove o diferente, apenas a manutenção do público cativo que senta todos os dias em frente à televisão. Apesar de tudo que já nos foi apresentado, o ano ainda promete algumas novidades na programação, tanto da rede Globo como de outras emissoras, e nos resta esperar que novidades na área das séries possam trazer um novo fôlego a essa comodidade ficcional que assistimos e algo de novo nos desperte um interesse ainda maior no ato de assistir televisão, um ato cada vez mais desacreditado por muitos.

Séries citadas:

é Mestre em Artes Visuais com enfoque em Minisséries e TV Experimental pela Unicamp e Bacharel em Midialogia na mesma Instituição. Trabalha como Analista de Marketing Digital Pleno e é pesquisador convidado de narrativas transmídia da ESPM/SP

16 Comments

  1. Paulo Serpa Antunes

    Clap, Clap, Clap!

    Muito bom. Pena que o editor aqui trouxa demorou a postar e por isto texto não inclui estes programas novos que estrearam – como este do Bruno Mazzeo, que é igual ao Cilada, só com mais gente.

    A Cura foi uma grande picaretagem.

  2. Carolcorrea

    Não vejo as séries da Globo. Ainda tentei ver Na forma da lei, mas depois daqueles ninjas matando alguém no porto do rio, ficou realmente difícil levar essa série a sério… realmente triste….

    da programação da Globo, acho que a única coisa que se salva é o Junto e Misturado! Esse programa é excelente!! Me lembra um pouco o Cilada, do Multishow… os caras são ótimos!

  3. Carolcorrea

    Só para complementar: depois de Hilda Furacão, nada que a Globo faz consegue me “viciar”… nada chegou aos pés dessa… nem séries, nem outras minisséries, e muito menos novelas (eca!)

  4. Anônimo

    Não que eu tenha assistido a alguma dessas séries nem vá assisti-las (eu me lembro, ainda bem que vagamente, do padrão que é oferecido), mas a análise… uau, que análise! As emissoras de TV deviam se esmerar para se tornar dignas de uma análise de Fernando Collaço…

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  7. Edmar Galvao

    assisti a todas e como sempre a globo inova, e as novas como juno e misturado e as cariocas são excelente….muito bom!!!!

  8. Fernando dos Santos

    Apesar de todos os defeitos das séries da Globo(em especial o lamentável fato de muitas delas terem cacoetes e maneirismos das novelas) eu acho louvável que uma emissora de grande porte como ela esteja apostando tanto na produção de séries brasileiras.A emissora parece ter entendido que só se vai evoluir nesse formato produzindo séries sem parar.Foi assim que os americanos,canadenses e ingleses chegaram lá.É claro que estamos com décadas de atraso em relação ao pessoal do hemisfério norte, mas o importante é continuar produzindo pois essa é a unica maneira de se aperfeiçoar.

    Pena que as outras prinicipais redes do país(SBT e Record) não estejam fazendo igual.A Record até ensaiou uns passos no terreno das séries em 2009 com Louca Familia e A Lei & O Crime mas acabou recuando.Ultimamente o máximo que a emissora tem feito nessa área é produzir minisséries contando histórias biblicas.
    Quem surpreendeu foi a decadente Bandeirantes, produzindo a série Tô Frito.

  9. Raphael Pinheiro

    Assistindo ao canal Viva hoje me lembrei de como a Globo talvez tenha acertado a mão quando fez Casos e Acasos: o formato de três continhos que podem estar interligados permite contar histórias leves, divertidas e com um humor até menos óbvio do que o geralmente encontrado na emissora. A duração de meia hora também permite que o ritmo seja ágil e não caia nas velhas armadilhas das novelas. Por fim, os atores parecem trabalhar de forma mais leve e se divertindo no processo. É um formato que eles poderiam manter no ar por mais tempo, creio.

  10. Netopaes

    Assisti Junto & Misturado outro dia e não tive como não lembrar: é Furfles da MTV com o Bruno Mazzeo no lugar do Marcelo Adnet.

  11. sobaminhalente

    Eu assisti algumas das que foram citadas, mas a que eu mais gostei foi “A Cura”. Muito boa, me surpreendi.

    Eu vi o episódio de “As Cariocas”, mas confesso que estou um pouco ainda com medo do que a série venha a ser.

  12. Rafa Bauer

    Vi o primeiro episódio de Na forma da lei e achei sofrível. Diálogos e atuações ridículas. Passei. A única das séries citadas que acompanhei foi A cura. Achei excelente, um salto na qualidade das séries no Brasil: texto, fotografia, elenco afiadíssimo. O roteiro foi um show à parte, com ótimo timing, conseguindo manter o interesse com flashbacks que dialogavam com o presente, em especial nos últimos episódios, quando deu pra ver como a trama foi bem amarrada. Nada ficou a dever às melhores séries americanas da atualidade.

  13. Rafael Simões

    Padrão de qualidade? Olha Fernando, eu sugiro uma análise das séries brasileiras da HBO, aquilo sim tem um Q gigantesco de qualidade

  14. Fernando Collaço

    Rafael, o que eu trouxe acima, posso não ter especificado, mas concerne a televisão aberta brasileira. É inegável o padrão de qualidade que a Globo estabeleceu no decorrer dos anos no que concerne ao processo da televisão aberta e este é reconhecido como o “Padrão Globo de Qualidade” que você já deve ter ouvido falar. Quando passamos para a esfera da televisão fechada, obviamente estamos tratando de uma outra forma de tratamento de imagem, mesmo se tratando de minisséries brasileiras, e isso envolve fatores diversos, como o econômico, e que variam sim de canal para canal, e isso se reflete em uma maior liberdade na criação e tratamento de imagens dentro das minisséries (ou mesmo outros programas). Compararmos a televisão aberta e a fechada envolve um outro recorte porque acabamos lidando com outros pesos para possível análise.

  15. Pedro Paulo

    Eu gostei muito de ALGUNS Casos e Acasos… aquele que a Lucélia Santos participou mesmo foi o que eu mais gostei…

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