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Opinião

Fear Itself e o gênero que não assusta mais

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Cena de Fear Itself

Antes mesmo de gostar apenas de dramas, eu era fascinado por suspense/terror. Lembro de ter visto várias vezes Lenda Urbana, até mesmo o Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado. Com o tempo comecei a procurar algumas coisas antigas, e foi aí que me deparei com Alfred Hitchcock. Minha vida já não era mais a mesma. O que dizer de Um Corpo que Cai? Ou, ainda, o grande clássico Psicose com a cena ainda mais clássica do chuveiro? O mestre do terror era fascinante e ele conseguia se reinventar, inclusive mesclar outros elementos com o suspense que faziam com que qualquer espectador pudesse vibrar com o filme, pudesse ser surpreendido.

Nesta mid-season semana procurei dar uma chance à Fear Itself, série de terror que foi ao ar na NBC e estreou esta semana no Brasil, no canal Space. O programa conta com episódios isolados e por isso não tem uma narrativa fixa. A cada semana uma nova história é apresentada, com novos personagens. Os capítulos são escritos e dirigidos pelos “mestres do terror” da atualidade. Fico a pensar: como eles podem dar um título como este a pessoas que não têm a mínima ousadia em ser diferente? E depois a minha imaginação parte completamente para a obra de Hitchcock e imagino como este deve estar se remexendo no túmulo.

Fear Itself tem graves problemas de roteiro, algo que já ficou muito claro nos filmes do gênero atualmente. Como os episódios são isolados uns dos outros, sobra muito pouco tempo para desenvolver os personagens, as histórias. Parece que, enquanto o capítulo vai passando, só ficamos mais perdidos com o que está sendo contado, porque nada faz sentido. O roteiro começa a jogar muitos fatos e, obviamente, sem dar nenhuma explicação para o que acontece. Tudo isso porque o tempo é pequeno para eles se preocuparem com a história, por isso a ação acaba sendo a parte favorita desses diretores e roteiristas. Os elementos do gênero também são explorados, mas o besteirol é muito maior do que qualquer outra coisa.

Eu tenho dito que o grande problemas dessas produções atualmente são as continuações e a tentativa de ganhar dinheiro. Claro, o cinema é algo mercadológico, assim como tudo nesta vida. Quando lançaram Jogos Mortais, por exemplo, foi um tremendo sucesso porque, naquele instante, foi um longa que conseguiu soar diferente e assustador ao mesmo tempo. Não era um filme apenas para dar sustos, mas tinha um roteiro altamente inteligente por trás. Depois vieram as continuações e a franquia se perdeu completamente na própria inteligência em constituir uma história tão boa no primeiro filme. A mesma coisa aconteceu também com Eu Ainda Sei…, Lenda Urbana 2 e outros que foram lançados.

Os remakes também nunca dão certo. Gus Van Sant é um exemplo disso. Ele deveria apagar a refilmagem que ele fez de Psicose da sua filmografia. E ele é um diretor extremamente competente e isso está comprovado nos filmes Últimos Dias, Paranoid Park e Elephant. No ano passado foi a vez de regravarem A Morte Pede Carona e o resultado: um desastre. Só valeu mesmo porque tinha a maravilhosa Sophia Bush no elenco. E esta tem sido a grande aposta do gênero: investir cada vez mais em mulheres gostosas para atrair o público. O que dizer, então, de Captivity, com a Elisha Cuthbert? O filme não tinha história alguma, mas bastou colocá-la tirando a roupa para ganhar atenção. Veja bem, eu não estou reclamando do formato, mas acredito que o gênero é bem maior do que isso. Na verdade, essa história, dizem os especialistas, se enquadram em sub-gênero: o torture porn. Fica a pergunta: até quando eles vão continuar criando gêneros para incluir as besteiras que eles mesmos fazem?

Assistir a um bom filme de terror hoje é algo realmente difícil. O último que consegui ver foi 30 Dias de Noite. A própria atmosfera do filme deu conta de transmitir o suspense. Como foi baseado numa história em quadrinhos, o trabalho ficou facilitado porque eles não tiveram que criar uma história, mas sim adaptar. Assim, o resultado não foi tão ruim como se esperava. O que nos resta é continuar relembrando clássicos como O Iluminado, Carrie: A Estranha, O Exorcista. Para ser um pouco mais contemporâneo, dá pra citar O Exorcismo de Emily Rose que, nos últimos anos, é o único que se salva da mediocridade.

E mesmo quando se lança obras que realmente resgatam os elementos do suspense/terror, como foi o filme Possuídos de William Friedkin, a crítica pouco dá valor e prefere continuar comentando dessas porcarias que hoje são lançadas. Possuídos foi um filme que passou despercebido pelo Brasil. Pouco se comentou que o diretor de um clássico, como O Exorcista, tinha conseguido novamente criar uma história inteligente e assustadora ao mesmo tempo. A verdade é que o gênero está entregue nas mãos de pessoas que se consideram “mestres”, sem ao menos saberem o que realmente significa ser um.

* * *

Fear Itself vai ao ar nas noites de sexta-feira, às 22h, no canal Space.

Texto adaptado de post publicado originalmente no weblog Sob a Minha Lente.

Séries citadas:

11 Comments

  1. Victor Hugo

    Eu tentei acompanhar a série mas parei no segundo episodio, pois o maior problema da série é esse : episodios isolados. E Geralmente a história não empolgava…

  2. Rodrigo

    Ótimo texto Vinícius, parabéns!!!
    Na realidade sempre quis alguma opinião sobre a “escuridão” dos filmes de terror, pq não achava possível só eu ver esse monte de lixo que andam fazendo… filmes como olhos famintos, a morte pede carona, freddyXjason….quem diria, acabaram com duas lendas do terror em um único filme… e o que dizer de jason X???
    Bom, enfim, gostaria de ver filmes de terror que realmente me entretessem ao invés de me fazerem rir… porque desses filmes fossem comédia, realmente seriam fortes candidatos ao Oscar!!!
    Enfim, mesmo assim ainda encontram-se oasis no meo desse árido deserto, como O Exorcismo de Emily Rose, Premonição (apenas o primeiro, pq as continuações foram engraçadíssimas… o premonição 2 até estava indo bem, mas algumas cenas como a última morte, com a cabeça do garoto na mesa e mãe gritando foi demais), Pânico (o primeiro foi o melhor, mas as sequencias são razoaveis ainda, na minha opinião) e Jogos Mortais…acho que é o único ponto em que discordo com vc… eu fiquei realmente entretido nos 4 filmes (ainda não vi o V)…acho o roteiro da história mto bom, uma coisa nova e que faz sentido, que nos deixa angustiado em querer saber o que vai acontecer no final…talvez seja a carência de bons filmes do gênero, mas que seja, sou fã dessa série!!!
    Bom, acho que é isso…abraços a todos..

  3. Bernardo

    Mas esse negócio de episódios isolados … acho que o próprio Hitchcock fez isso – tem um programa que passa no TCM “Alfred Hitchcock Presents”. Descrição no IMDB: “Alfred Hitchcock, the Master of Suspense hosts his own television show, “Alfred Hitchcock Presents”. Hitchcock introduced the show which was then followed by a short half an hour episode which contained, suspense, horror and humour. After the story, Hitchcock would come back and end the show.”

    E ainda tem aquela “coisa” chamada “A Casa de Cera” que usou a Paris Hilton como chamariz de público >_<

  4. Fabiano

    Quando Fear Itself passava no Showtime com o nome de “Masters of Horror” – e dispondo de bastante liberdade em relação a violencia, sexo e roteiros ousados, conseguiu produzir alguns episodios realmente memoraveis, incluindo um dirigido pelo japones Takashi Miike, ídolo de Quentin Tarantino e outros cineastas jovens ocidentais.
    Mas na transferencia pra tv aberta tudo isso foi pro buraco e o resultado é esse lixo aí, chamado Fear Itself. Só aguentei uns 3 episodios.
    Nao é o genero que “não assusta mais”, o problema é que ele geralmente é mal produzido, e isso não é de hoje.

  5. Fábio

    Eu achei esse seriado um lixo, e não acho que a culpa são eventos isolados é o maldito clichê mesmo, o primeiro episodio achei médio, mas tem um bilhão de histórias iguais, pessoas perdidas que vão para uma comunidade deserta cheia de mistérios. O melhor nesses generos sempre foi e sempre será na minha opinião Além da Imaginação 1º versão que era muito bom, outros que se destacam são Teatro de Ray Radburry, Suspense com Alfred Hitchcook, Galeria do Terror e Amazing Stories. Todos são otimos.
    Filmes de terror bons são realmente dificies de se ver com qualidade, o drama é visto com preconceito e o pessoal confunde Trash com qualidade.

  6. George Dantas

    Que eu saiba “Fear itself” é uma série diferente de “Masters of Horror”, ou estou enganado? A segunda temporada de Masters está passando na madrugada de sexta para sábado (1:30) no FX, enquanto que a primeira temporada de Fear passa dublada no Space às 22:00 da sexta.

    Estou assistindo as duas e, sinceramente, estou preferindo Fear. Apesar de ter pouco tempo para desenvolver os personagens, como citou o Vinícius, pelo menos não parece uma sequência de violência e de cenas grotescas, quase beirando o extinto cine trash da band, como está sendo esta temporada de Masters (pelo menos a maioria dos episódios que assisti). O que devia prender neste tipo de seriado, na minha opinião, seria o roteiro e a atmosfera gerada e nesses aspectos ainda acho que Fear está ligeiramente superior. Talvez se a produção de Masters melhorasse e voltasse ao nível da primeira temporada, as coisas poderiam ser diferentes.

  7. Claire

    Concordo com a Milena,achei O exorcismo de Emily Rose uma porcaria.

  8. Fernando dos Santos

    Para mim o maior mérito de Alfred Hitchcock como diretor(e ele tinha vários méritos) era conseguir assustar o público sem jamais ter de recorrer ao sobrenatural.
    Ele conseguia assustar o espectador sem fazer uso de fantasmas,lobisomens,vampiros,zumbis,alienigenas e todas as criaturas que povoam o gênero.Nada contra os filmes que recorrem a estes elementos de forma eficiente, mas o impacto da obra é maior quando o medo brota a partir de “monstros” da realidade.
    Achei que o review ficou bom.

  9. Fabiano

    “Que eu saiba “Fear itself” é uma série diferente de “Masters of Horror”, ou estou enganado?”

    Quando o Mike Garris, criador de ‘Masters of Horror’, levou a serie do Showtime pra NBC, se viu obrigado a não só alterar o nome pra “Fear Itself” como suavizar o conteudo, fazer algo previsvel, ao gosto do americano médio. A queda de qualidade na produção em geral é bem visivel, na minha opinião.

    mais informações:
    http://www.filmjunk.com/2007/09/26/masters-of-horror-moved-to-nbc-and-renamed-fear-itself/

  10. Cesar Adriano

    parabéns Vinicius, excelente texto, mesclando séries e filmes… da série não tenho nada a comentar pois não acompanho.

    Do genero terror, em geral o que percebemos é que os 1 filmes são bons, mas daí vem a ganância e pôe tudo a perder nas continuações.

    Dos últimos filmes de terror/horror, gostei de Silent Hill, bem assustador e diferente.

    Desde sexta feira 13 p2, que eu gosto de ver uma gostosa em perigo, já é tradição no cinema, claro que o outro lado da moeda, ou seja, os filmes mais sérios, estão excassos.

    9 – Fernando dos Santos, boa observação, pois justamente a grandeza dos dois filmes do hitchcock, (Um corpo que cai e Psicose), está em analisar a psicanálise…que filmes fazem isso hoje em dia?

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