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Opinião

Evidências do sucesso e do fracasso dos shows policiais

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cena de The Evidence

Nesta quarta-feira a Warner exibe o último episódio de The Evidence. Eis uma série, que apesar de todos os seus tantos defeitos, acabou conquistando minha simpatia por um ou outro motivo. E me fez pensar um pouco mais sobre os formatos e os motivos de sucesso e fracasso dos seriados policiais, gênero que apesar de não ter grande destaque da mídia e da crítica, ainda domina (e lidera) a programação norte-americana.

A este ponto é possível identificar dois fatores de sucesso e fracasso de show como The Evidence. Confira:

Formulismo – Seriados policiais se baseiam na fórmula clássica da literatura policial: crime – investigação – solução. E o sucesso de CSI, em 2000, galinha dos ovos de ouro de Jerry Bruckheimer, acabou criando um novo paradigma para os seriado policiais. E também um paradoxo: ao mesmo tempo que CSI sofisticou a fórmula do show policial com sua abordagem científica, gerou uma série de derivações que oscilam em sofisticação e qualidade – de um lado temos as sofisticadas Without a Trace e Numb3rs, de outros as mais simplórias Cold Case e Close to Home, e também clone descarados como CSI:Miami e CSI:NY e cópias disfarçadas, como Crossing Jordan e Bones).

The Evidence nasce no meio deste cenário, da busca de novas fórmulas para série policiais e busca se diferencia mostrando antecipadamente as evidências de um crime. A série quer ser inovadora, planeja envolver o leitor num quebra-cabeça da solução do crime, mas não consegue. As evidências não dizem nada, até porque elas vão aparecendo a medida que as investigações avançam, às vezes poucos minutos antes do fim do episódio. A intenção é nos envolver a descobrir o “quem” e o “como” do crime. Isto costuma funcionar muito bem em Law & Order: Criminal Intent e Monk. Aqui, no entanto, não rola.

Carisma – Outra lição importante a ser aprendida é que todo show policial precisa ter um protagonista carismático. Há quem torça o nariz para Gil Grissom, mas a verdade é que o líder nerd e excêntrico de CSI é um tipo único na TV americana. O mesmo para o obsessivo-compulsivo detetive Goren de Criminal Intent. Eles desagradam muita gente, mas ao longo das temporadas construíram uma base leal da fãs. E, claro, ambos são inegavelmente muito bem representados pelos excelentes William Petersen e Vincent D’Onofrio.

Eu torço o nariz para o Horatio Caine de David Caruso em CSI:Miami, mas eis que talvez ele seja o policial mais popular da TV americana na atualidade, com suas fases de efeito, seu olhar sofrido e seu estilo contido.

O carisma do personagem e o talento do ator é fundamental para manter uma série policial em pé, especialmente naquele primeiro momento onde o show precisa se firmar perante a audiência. Repare em Criminal Minds. Ela tem bons roteiros e uma excelente produção e caracterização, mas parte evidentemente de uma fórmula nada original – seriados sobre profilers já tivemos muitos. Mas o que a fez se tornar um dos maiores sucessos da temporada nos EUA, enquanto as semelhantes The Inside ou Killer Instinct fracassavam? Resposta: ela tem Mandy Patinkin no papel principal.

The Evidence precisava de um nome que a sustentasse e certamente o fraco Rob Estes (que sequer manteve o sex-appeal dos velhos tempos de Paixões Perigosas) não tinha talento para construir um personagem tão difícil, que ao mesmo tempo precisava ser um homem torturado e atraente e simpático.

De resto, eis que a série acertou aqui e ali. Os coadjuvantes eram bons. Especialmente Martin Landau, que não é vencedor de um Oscar por acaso (ele dá um show especialmente no episódio Borrowed Time, relembrando sua infância durante a Segunda Guerra em um inesperado e emocionado diálogo). Outra boa surpresa foi Orlando Jones, veterano em cinema, mas novato em séries de TV, no papel do inspetor Bishop. The Evidence ainda tinha um charminho nos roteiros. Ao estilo Pulp Fiction – Tempo de Violência, a série surpreendia com uns bem colocados diálogos espertos, puro small talk, que criavam intimidade com os personagens e revelavam um pouco mais de suas vidas do que o que estamos acostumados a ver em outros shows policiais.

Obviamente, estes dois ou três pequenos acertos jamais bastariam para manter a série no ar.

É jornalista, pós-graduado em Jornalismo Digital pela Pucrs e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. É editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Fundou o TeleSéries em agosto de 2002. Na época, era fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed. Atualmente é viciado em The Good Wife, NCIS, Game of Thrones e Parks and Recreation.

25 Comments

  1. Lucas R.

    Discordo da classificação de Crossing Jordan como uma cópia descarada de CSI. Ambas são semelhantes em teoria, mas diferem na prática.
    E apesar de Cold Case ser menos nerd que CSI, não diria que é uma série mais simples. É claro, tem toneladas de formulismos e muitas falhas, mas é um bom show. Teria se saido melhor na HBO, onde poderia ter uma hora de duração em vez de 42 minutos (o que ferra MUITO a série) e poderia ter menos censura, além, claro, de selecionar só os melhores roteiros, pois de 23 para 13 haveria a redução de 10 roteiros menos inspirados por temporada.

  2. Roosevelt Barros

    Concordo com o Cristiano, pra mim séries policiais estão se multiplicando feito capim e nem sempre vem coisa boa ou original. Poucas como a vibrante THE SHIELD surgiram nestas últimas temporadas.

  3. Cesar

    Gosto de séries policiais, especialmente porque normalmente se encerram nos próprios episódios. Mas, não há espaços para muitas, pois como disse o Paulo, o formato está dado e não há muito o que re-inventar. Aliás, muito bem feita a análise. Até por isso, não teremos muitas estréias policiais. Isto mostra a força das que estão em cartaz.

  4. Magog

    Séries policiais não acabaram nunca na TV americana. São como as nossas novelas, mudam mas continuam iguais. Desde “Gunsmoke”, continuam com o mesmo formato e continuam fazendo sucesso. Mudam os detalhes mas o mote – como disse o Paulo Antunes – é sempre o mesmo e o sucesso também.

  5. Eric

    Séries policiais pra min são muito limitadas. Poucas tem a arte de serem boas. O formato já está desgastado, pelo menos pra min. As que tentam inovar, não são bem recebidas. Deve ser pq o público americano está acostumado com formatos habituais que novidade pra eles não colam. A única que assisto, mesmo não sendo a melhor de todas, é CSI: NY.

  6. Henrique Martins Henriques

    Esse filão está mesmo longe de ser esgotado, e essa “sofisticação” de CSI chegou até mesmo aos seriados SCI-FI no episódio dessa semana de Threshold um dos genios de plantão da equipe montada pra salvar o mundo aproveitava todo pimpão a oportunidade de usar “suas habilidades forenses”.

    The Evidence nem era mesmo dos piores casos, mas também não dá pra falar que vai fazer falta. Como dizia o presidente Josiah Bartlet, “what´s next?”

  7. Eu adoro séries policiais. Tem uma lista enorme na minha memória afetiva: Starky & Hutch, Hill Street Blues, Law & Order, CSI, Third Watch, NYPD Blue, O Homem da Máfia (como era o nome desta em inglês?), até Fastlane (adoravelmente despretenciosa) e Keen Eddie (de apenas 1 temporada). Teve muita coisa boa e ainda tem, como qualquer outro gênero. Eu estou sentindo falta de uma bem típica daquelas de 1 dupla de policiais bem amigos que encaram todas e investigam os mais diversos tipo de de crime, bem padrãozão mesmo batido, mas bem feita.

  8. Angelo

    Eba! Adoro os textos de análise! Vamos lá…

    O segredo está no diferencial:

    COLD CASE – Preza muito mais pela narrativa e pela construção das personalidades das personagens-testemunhas da semana do que pelo crime em si. O fato de fazer das músicas “um quê a mais”, uma parte integrante do show e, consequentemente do seu clímax, resulta em clima diferente.

    WITHOUT A TRACE – O sequestro e a procura por uma vítima que continua sofrendo nas mãos de seu raptor enquanto as investigações se arrastam é tão ou mais interresante do que assassinatos. E a vida pessoal e os estresses desses investigadores como parte do programa veio antes de CSI que se manteve fria e distante até seu 5º ano.

    CROSSING JORDAN – Também não considero uma cópia disfarçada de CSI. O appeal estava na vitalidade e agressividade da personagem feminina: uma jovem e bonita mulher, médica legista despedida de seu trabalho anterior por causa de seus acessos de raiva, que passa 18 horas do seu dia revirando entranhas de cadáveres e dormindo no sofá no necrotério, afogando-se no trabalho para não lidar com suas angústias pessoais e de quebra ainda se metia no trabalho da polícia… Enfim.

    E o principal eu concordo: CARISMA É FUNDAMENTAL e é, na esmagadora maioria, mais valioso que bons roteiros para o grande público. É FATO!

  9. Renata

    Meu Deus! Alguem lembrou de Fastlane!!!!!!! Que pena que durou soh uma temporada. Eu soh vi alguns pedacos dessa The Evidence mas as conversas entre os dois detetives sempre me lembravam do Van Ray e do Deaq mas nao sei… faltava alguma coisa. De qualquer forma, to com o Cristiano. Nao aguento mais series policiais e esses “spin offs” de CSI. Alias, so to esperando acontecer um cross over entre os CSIs, Without a Trace, Cold Case e Close To Home. Ao mesmo tempo.

  10. Pedro Schmitt

    Também adoro séries policiais e muitas vêzes o personagem é tão forte – Monk, Grissom, Allison (sim, para mim Medium é policial) – que se sobrepõe à quaisquer fórmulas.

  11. Osório Coelho

    Não tenho mais a menor paciência para esse tipo de drama policial, excetuando a interessante NUMB3RS. Mas a fórmula Atores + Roteiros + Direção ainda é (por mais incrível que pareça), imbatível, oras.

    Além da fantástica THE SHIELD, que já foi citada anteriormente, coloco na roda a maravilhosa THE WIRE, que tem no seu time de roteiristas gente do calibre de um Dennis Lehane e George Pelecanos.

    Essas duas séries fogem dessa fórmula envelhecida, tirando o academicismo de séries bolorentas, mostrando em temporadas enxutas, tramas interessantes e personagens marcantes.

    E olha que eu nem falei da Britânica MI-5 (SPOOKS), ou DUPLA IDENTIDADE, que, infelizmente é dublada. Vale e pena assisti-la em Dvd.

    Dá para fugir desse marasmo.

  12. Cesar

    Fastlane era, sem dúvida, excelente. Despretenciosa em termos de roteiro – sempre bastante caricato e óbvio – tinha vitalidade, excelentes efeitos e atingia em cheio um público jovem e que não tinha opções com cara de cinema – Fastlane, mais que uma série policial, era uma série de ação e não de reflexão.

    Apesar de uma temporada só, deixou fãs.

  13. Fabiano

    Assino embaixo a colocação do Osório: The Shield e The Wire são disparadas as melhores séries policiais da atualidade.

  14. Cristiano Vieira

    Não digo que não gosto ou nunca gostei de série policial. Só acho que o genero está desgastado e estou na espera de algo mais original.
    Para mim os últimos bons são THE SHIELD e THE WIRE.C.S.I começou bem mas para mim a fórmula já bateu.

  15. Cesar

    Eu entendo a opinião do Cristiano sobre o “esgotamento” da fórmula CSI, especialmente em termos de novos shows. Não dá pra ficar repetindo a fórmula apenas para ocupar horário nas grades.

    Mas, na linha do que eu disse num outro post, os telespectadores querem apenas diversão e, por isso, séries menos “cabeça” seguem na liderança de audiência. Vamos ver como será nesta temporada.

    O fato de novas séries policiais não darem certo talvez seja um sinal de que os telespectadores queiram apenas os “originais” (que já contém uma boa dose de “genéricos”), justamente porque as fórmulas já deram o que tinham que dar.

  16. Patricia E.

    “E olha que eu nem falei da Britânica MI-5 (SPOOKS), ou DUPLA IDENTIDADE, que, infelizmente é dublada. Vale e pena assisti-la em Dvd.”

    Céus! Encontrei mais alguém que vê a série! :D Apesar de não ser exatamente uma série policial, Dupla Identidade se destaca por mostrar tramas de espionagem mais “pé no chão” e sem medo de tocar em feridas (tramóias políticas, 11 de setembro, extremismo religioso e por aí vai). Fora que nessa série os personagens podem morrer a qualquer momento. A dublagem infelizmente tira um pouco do impacto (digo isso porque odiei The Office quando passava dublado no P&A e depois fui ver no original e rolei de rir. Agora tô correndo atrás dos episódios que deixei de ver). Tenho as 3 primeiras temporadas em DVD e vou comprar a 4ª (fui atrás dos DVDs porque a versão do P&A é igual à versão que vai ao ar na A&E nos EUA, ou seja, foi editada de 59 minutos pra cerca de 45 minutos pra inserção de comerciais). A nova temporada estréia esse mês na BBC e certamente irei acompanhá-la (por meios alternativos porque se depender do People & Arts…).

    The Shield me fez voltar a ver séries policiais, com sua visão nua e crua das ruas. Ainda não tive a oportunidade de conferir The Wire, mas farei isso assim que puder.

    Quando vejo Cold Case me lembro de uma série canadense que foi exibida pelo AXN — Cold Squad. Na época Cold Case foi acusada de plágio, mas a única coisa que as duas séries tinham em comum era o tema “casos tidos como encerrados sendo reabertos”. O formato de ambas era totalmente diferente, embora muitos apontem semelhanças entre as protagonistas. Pessoalmente, gostava mais da série canadense, cujos personagens e situações fugiam das fórmulas das séries made in USA. E em Cold Squad nem sempre o caso em questão era resolvido, deixando muito mais pontas soltas do que antes, fora o impacto na vida dos envolvidos. A série teve 7 temporadas e parece que só agora ela será exibida nos EUA (em syndication), o que certamente irá gerar comparações com Cold Case.

    Apesar do visível desgaste, esse é um gênero que nunca sairá do ar. Como na TV tudo faz parte de um ciclo, hoje elas estão em alta, mas amanhã as séries sobrenaturais podem tomar o seu lugar, depois virão as sci-fi, as comédias e por aí vai.

  17. Igor

    Falando de series policiais antigas, lembrei de uma que passava no AXN(na epoca nem era esse nome),Nash Bridges com Don Johnson. Até que era boazinha para passar o tempo…

  18. Amanda

    The Evidence era evidentemente fraca. Não gosto muito de CSI, curto mais Without a trace e Close to Home (que as vezes mata pela ingenuidade) mas tem o diferencial do tribunal além da investigação. Acho Cold Case muito fraca e cheia de falhas. Outra também que eu adoro e nem foi mencionada na matéria é Third Watch, que não é só policial, também focava paramédicos e bombeiros, pena que acabou. O diferencial dela esta exatamente nessa diversidade de pontos de vistas diferentes e que não envolviam necessariamente um caso por dia. Além de ter muitos personagens carismáricos e roteiro bom.

  19. Paulo Antunes

    Amanda,
    Third Watch não entrou no texto porque é outra história e outra estética, pré-CSI, completamente diferente. Também não citei SUV, por exemplo, até tem uma fórmula básica, mas ela volta e meia quebra a rotina com episódios completamente diferentes.

  20. Victor Regis

    Fastlane era tão legal!!
    No momento as únicas séries policiais que assisto são Medium(se é que é policial)e Close to home (apesar de ser repetitiva eu adoro)

  21. Marcos Almeida

    Olha, falem o que quiserem, mas pra mim séries policiais como CSI, Crossing Jordan e Law & Order SVU são melhores que qualquer uma dessas séries da moda. Bons roteiros, atores de qualidade e carismáticos e personagens bem construídos…

  22. Paulo Fiaes

    ae galera vcs estao esquecendo bomtown(senao me engano, era assim q escrevia) essa serie passava no axn e era surpreendentemente nova, mas o publico nos states tem mania por querer repetições, fastlane era mto legal mesmo, hj em dia gosto de ncis, policial com pitada de humor, essa eh uma serie q o carisma dos personagens conta bastante, nem dar pra dizer q ela eh da extremamente seria jag,

  23. Vinicius Antunes

    As série policiais são para os produtores um modo mais seguro de investir seu dinheiro. Assim como CSI era descreditada pela critica e decolou, muitas outras series podem estar engavetadas. Nos resta acostumarmos com o filão,pois ainda vem muito do mesmo por aí. Pelo que sei, CSI e Cold Case são produzidas pelo Jerry Bruckeimer, mas diferem no modo de investigar. Mesmo assim as duas séries são ótimas,e álias, tem atores maravilhosos.

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