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Entreatos: Cultura Pop levada a sério – True Detective e as piadas internas

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Na última edição do prêmio Emmy Awards, True Detective, série de HBO criada e escrita por Nic Pizzolato, recebeu sete indicações e obteve quatro vitórias, incluindo Outstanding Cinematography for a Single-camera Series. Mas o que marcou mesmo a noite para a produção foi um sutil e irônico comentário que quase passou desapercebido pelo grande público.

Durante a cerimônia os astros da primeira temporada, Matthew McConaughey e Woody Harelson, subiram ao palco para apresentar as indicações melhor ator em uma minisérie ou filme. Em meio às piadas do script, Harelson aproveitou para tirar umas risadas a mais, ironizando: “I’m grateful you had all the plagiarized line” (Sou grato que você tinha todas as falas plagiadas).

COLUNA | Do banquete do Emmy para a sua casa

Dado o silêncio da plateia McConaughey replicou com um sorriso “Was that too much of an inside joke?” (Será que foi muito uma piada interna?).

A dupla se referia à polêmica que acompanhou a série nas semanas que antecederam o prêmio, quando um site que reúne fãs do obscuro escritor Thomas Ligotti acusou a série de plagiar os trabalhos do autor. Basta uma rápida pesquisa do Google ou no Youtube para encontra dezenas de comparações entre o texto de Ligotti e as falas escritas por Pizzolato para a personagem de McConaughey, e logo perceber que as semelhanças entre eles. Trechos como os seguintes saltam nas páginas da web:

“We became too self-aware. Nature created an aspect of nature separate from itself. We are creatures that should not exist by natural law.”  (True Detective)

We know that nature has veered into the supernatural by fabricating a creature that cannot and should not exist by natural law, and yet does. (Ligotti)

Não se trata de uma coincidência, porém, nem tão pouco de um plágio. Que Pizzolato leu e se inspirou em Ligotti não é mistério para ninguém, era um fato já estabelecido pelo roteirista, que mesmo antes da polêmica havia citado o escritor como uma de suas fontes na construção de suas personagens. A questão está no contexto: ao acusar a série de plagio os fãs de Ligotti voltaram-se às regras de construção de texto estabelecidas por universidades e jornalistas, porém o roteiro de uma série não é um trabalho acadêmico, mas sim artístico, e neste campo o jogo muda.

Em arte criar a partir de um outro texto ou outra obra não é plagio, mas sim uma ferramenta de intertextualidade, a paráfrase (palavrinha que nos leva diretamente de volta aos tempos de colegial e cursinho). Isto não quer dizer que não haja aí a noção de propriedade intelectual (a grande greve de roteiristas deixou isto bem claro), ou que não possa haver plágio no mundo artístico. A chave da diferença está no verbo: criar. Plágio é tomar como seu o trabalho artístico que já existe, mas beber de um texto para criar algo novo e além da fonte original nada tem a ver com cópia. Tom Jobim usa notas de Chopin para compor, mas ele não buscou ser um segundo Chopin, e sim lançou mão da inspiração para criar a bossa nova. Picasso se inspira nas máscaras africanas, mas o cubismo que ele criou a partir dela não existia até então. E Machado de Assis, como centenas de outros grandes escritores, se voltou a Shakespeare para achar os grandes temas de seus romances.

E com as séries não podia ser diferente, Breaking Bad faz referências a Shelley, Mad Men, volta-se à Dante, e Buffy (minha blíblia pessoal no mundo das séries), revela a mente plural de Joss Whedon citando casualmente frases de Shakespeare, Frost, entre outros clássicos da literatura. E estas referências estão abertas para todo bom leitor que souber encontra-las, Machado de Assis esperava que seu leitor visse o ciúme de Otelo em Bentinho – é como uma piada interna entre o autor e o leitor. E se isso acontece dentro do hermetismo das ‘grandes artes’, como não há de acontecer no mundo plural da cultura pop, em que nos comunicamos por quotes, citações como uma linguagem própria que outsiders não compartilham. As frases de Ligotti não estão escondidas, elas estão às claras para que seus fãs identificassem, afinal, todo fã é no fundo um trekkie se comunicando com seus iguais em Klingon.

Sem contar que as frases do próprio Ligotti apresentam influências dos filósofos ditos pessimistas como Nietzsche e Schopenhauer – fontes que também serviram de inspiração para True Detective, segundo Pizzolato. E aí que está a beleza do diálogo artístico, as conversas.

O que devemos fazer é celebrar que a TV americana esteja criando produções que possam estabelecer diálogos entre grandes obras capazes de atrair o público do Prime Time e, no melhor estilo da cultura pop aproveitar cada uma dessas ‘piadas internas’ que nós, fãs assíduos, consigamos compartilhar.

Oi pessoal! Bem vindos à primeira edição da nova coluna do TeleSéries, Entreatos! A Letícia vai falar sobre cultura pop por aqui sempre às quintas-feiras. A cada 15 dias uma nova coluna estará no site, falando sobre assuntos randômicos e bacanas. Temas sérios com uma leitura nem tão séria assim.

Deixem suas impressões sobre a coluna nos comentários, e contem-nos o que vocês esperam ver por aqui. Nos encontramos em duas semanas!

Séries citadas:

2 Comments

  1. Fernando dos Santos

    Dizem que o filme O Amigo Americano(1977) teria sido também uma das fontes de inspiração para o criador de Breaking Bad.

  2. biancavani

    Coluna bacanérrima.

    Assisti a True Detective. Gostei de tudo nela, sobretudo a filosofia de Rust – claramente shopenhauriana -, sempre confrontando e sendo confrontada pelo senso comum do Martin. Eu desconhecia essa questão Pozzolato/Lingotti, e agora, lendo a coluna, posso entender as sutilezas do comentário de Matthew. Legal!
    Já comentei algumas vezes que as histórias possíveis já foram todas contadas – pelas tragédias gregas, Shakespeare, e outros. Essa matéria (limitada) aparece sempre renovada pela forma – esta, sim, podendo trazer ventos frescos a uma história antiga.

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