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Gastronomia

Enquanto tiver spoonbread, Dr. Luka Kovac fica em ER

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Caro Sr. Vernon,

Aceitamos o fato de que nós tivemos que sacrificar um sábado inteiro na detenção por tudo o fizemos de errado – e o que fizemos foi errado – mas achamos que você é louco por nos fazer escrever este texto dizendo-lhe o que pensamos de nós mesmos. Que lhe importa? Você nos enxerga como deseja nos enxergar: em termos mais simples e nas definições mais convenientes. Você nos enxerga como um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um criminoso. Correto? Essa é a maneira que nós víamos, às sete horas desta manhã. Passamos por uma lavagem cerebral.

A citação inicial deste post não pertence a uma série de TV, e sim a um filme: O Clube dos Cinco [The Breakfast Club, 1985] com direção e roteiro do cineasta John Hughes. No filme, cinco adolescentes são obrigados a cumprir detenção no colégio e acabam formando laços de amizade improváveis ao exporem suas personalidades complexas.

Este modelo foi utilizado no décimo-sexto episódio da oitava temporada da série ER (Plantão Médico) [Secrets and Lies, exibido originalmente nos EUA em 7 de março de 2002], quando os doutores Carter, Luka e Susan, o estudante de medicina Gallant e a enfermeira Abby são flagrados pela supervisora mexendo nos pertences de uma paciente do pronto-socorro, uma dominatrix.

Os cinco são obrigados a comparecer a uma palestra sobre assédio sexual, porém o instrutor se atrasa e eles começam então a conversar para passar o tempo. Assim como acontece no filme, a interação entre os personagens passa por diversas fases – das acusações mútuas aos joguinhos adolescentes, até o estabelecimento de um laço de cumplicidade entre eles.

Neste episódio são feitas muitas revelações, algumas relevantes para o desenvolvimento do caráter do personagem ou para o desenvolvimento de relacionamentos afetivos ou profissionas, e outras sem relevância prática alguma. Dentre as irrelevantes constam os motivos pelos quais o Doutor Luka Kovac permanece nos EUA em vez de voltar para o seu país natal, a Croácia.

Dr. Luka Kovac:

“Churrasco. Você não consegue achar uma boa costela em Zagreb, sabe. Sem mencionar spoon bread e torta de batata doce.”

Claro que isso é uma manobra para desviar a atenção dos outros quanto aos reais motivos, mas o que chamou minha atenção não foi isso – afinal, conforme Hercule Poirot costuma dizer, as mentiras também revelam verdades. Não, o que me intrigou foi a menção ao “spoon bread”, que na tradução em português europeu virou “pão de milho” mas na verdade se parece mais com um misto de broa e o cuscuz feito nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

O “pão de colher”, numa tradução mais literal, é uma iguaria típica do sul dos EUA feita com fubá grosso, leite, ovos e manteiga. Suas origens são incertas; acredita-se que seja resultado das tentativas dos colonizadores de fazer pudding com os ingredientes de que dispunham no Novo Mundo, sendo o milho o mais abundante.

A receita – Spoonbread

Ingredientes:
3 xícaras [chá] de leite
1 xícara [chá] de fubá
1 colher [sopa] bem cheia de manteiga
1 colher [chá] de açúcar
1 colher [chá] de sal
1 colher [chá] de fermento químico em pó
3 gemas batidas
3 claras em neve

Modo de preparo:
Preaqueça o forno a 180° C. Unte com bastante manteiga uma fôrma refratária quadrada com 20cm de lado.

Em uma panela, aqueça o leite até ferver e ajuste o fogo em 80° C. Acrescente o fubá mexendo bem para desfazer as pelotas. Baixe o fogo e deixe cozinhando por cinco minutos, misturando sempre.

Retire do fogo e adicione a manteiga, o açúcar, o sal e o fermento, misturando muito bem. Em uma tigela grande, coloque as gemas batidas e vá despejando pequenas porções da mistura quente, mexendo bem para que não coalhem com o calor. Incorpore gentilmente as claras em neve.

Despeje a massa na fôrma untada e leve para assar durante 40 a 45 minutos. Ele deve crescer igual suflê. Coma com uma colher.

Notas pessoais: receita com grau de dificuldade médio, serve seis pessoas e é indicado para quem não pode comer glúten. O sabor é bem neutro, o que torna o spoonbread um acompanhamento versátil que tanto pode acompanhar sopas e guisados [e churrasco] quanto virar um lanchinho doce para o café da manhã, servido com calda ou mel e uma dose farta de manteiga enquanto está quente.

Este post atende a sugestão de Anderson Narciso e Flávia Varsano Ribeiro.

Séries citadas:

14 Comments

  1. Anônimo

    Eu nunca comi spoon bread, mas esse episódio de ER é antológico.
    Adorei o post, Lu! E, mais uma vez, quero elogiar toda a pesquisa que você faz para escrever.

    Uma coisa legal desse episódio é a tensão entre Carter (que na época estava namorando a Susan, no casal mais nada ver da história de ER) e Luka, já com a Abby no meio. Eu nem era fã dos momentos shipper de ER, mas nesse episódio de pegada meio adolescente isso funcionou muito bem.

  2. Anônimo

    brigada, flávia!

    uma das coisas que mais gosto em escrever é que sempre aprendo coisas novas. :o)

  3. Anônimo

    sim! 

    especial, especial, especial!
    *imitando o muttley da corrida maluca*

  4. Anônimo

    Amo Community, mas sabe que não lembro do piloto? Acho que nem cheguei a ver, comecei a assistir lá pelo meio da primeira temporada.

  5. Anônimo

    eu tou meio de bode com a possibilidade de cancelarem community.
    :o(

  6. Mônica Almeida

    Adoro Clube dos Cinco e Adoro ER! Esse episódio foi um dos melhores da série. Você sempre nos deliciando com seus posts, Lu, parabéns!
    Será que se eu aprender a fazer spoon bread o Luka aparece aqui em casa?

  7. Lunaomi

    hahahaha! mônica, aposto que essa é a dúvida de muita gente.
    ;o)

  8. Tati Siqueira

    Opa…..se for assim aprendo até fazer churrasco…….kkkkkkk, parabéns pelo texto Lu……

  9. Anônimo

    tati, valeu!

    agora ou curiosa pra saber o que agarraria o george clooney, que escapou até da elisabetta cannalis. ;o)

  10. Pingback: Domingueiras « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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