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Cansei de prequels: as primeiras impressões de ‘Better Call Saul’

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A primeira vez que eu ouvi falar a palavra prequel foi em um comentário em alguma rede social ou fórum. Alguém criticava o filme Quarteto Fantástico, de 2005, dizendo que ele era apena um prequel. O filme, que é muito ruim, parece mesmo um grande prólogo. Quando parece que o filme vai finalmente começar, ele termina.

Mas o neologismo prequel se popularizou alguns anos antes, eu é que não tinha prestado a atenção. Foi quando George Lucas decidiu forrar os bolsos filmando a segunda trilogia (ou seria primeira?) de Guerra nas Estrelas. Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma era um prequel – um filme anterior à sequência, voltando na ordem cronológica natural de narração da saga.

Prequels não são invenções narrativas do cinema. Na literatura são muitos os exemplos de autores que criaram histórias em torno de acontecimentos passados com personagens e universos que criaram: gente do calibre de J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis e mais recentemente George R. R. Martin fizeram isto.

Na TV americana, o recurso narrativo vem ganhando corpo nas últimas décadas. O tradicional recurso de narrar acontecimentos em flashbacks ao longo do episódio deu lugar a episódios completos ambientados no passado. O recurso funciona incrivelmente bem com dramas, mas até em comédias aparece. Friends possui um episódio assim, The One With The Flashback. Frasier também possui parte de um episódio narrado assim, The Big Bang Theory e Desperate Housewives também.

Meu episódio favorito nesta linha é um da segunda temporada do drama policial The Shield, que ganhou o ótimo nome de Co-Pilot (co-piloto, mostrando justamente os acontecimentos que antecederam ao chocante primeiro episódio da série, em que Vic Mackey mata o seu colega Terry Crowley).

A partir de 2004, Lost mexeu com a linha narrativa das séries de TV, misturando flashbacks e flashforwards, às vezes no mesmo episódio. Mas Lost também em alguns momentos usou prequels para alinhar a narrativa. Em The Other 48 Days, por exemplo, descobrimos como foram os primeiros dias de Mr. Eko, Ana Lucia e dos demais sobreviventes voo 815 que se perderam dos demais. O recurso também vai ser usado para narrar a desastrada passagem de Rodrigo Santoro pela ilha em Exposé, enxertando a dupla Nikki e Paulo em vários momentos da trajetória da série.

Em seu melhor momento, Heroes surpreendeu com o episódio Six Months Ago – um prequel impecável posicionando todos os personagens da série seis meses antes dos acontecimentos do episódio piloto. De lá para cá, virou comum que serial dramas façam episódios prequels: Jericho teve um, Fringe teve dois (!!), recentemente Penny Dreadful teve um também.

E séries inteiras estão sendo desenvolvidas a partir da premissa do prequel: The Young Indiana Jones Chronicles mostrava as origens do arqueólogo criado por George Lucas. Smallville é o prequel do nascimento de Superman. A fracassada The Carrie Diaries tentou beber da fonte de Sex and the City. Caprica em Battlestar Galactica. Atualmente temos Gotham, Hannibal e, de forma meio torta, Bates Motel.

E projetos não faltam nesta linha: a segunda temporada de Fargo será ambientada no passado e terá como protagonista um versão jovem de Lou Solverson, o personagem de Keith Carradine no primeiro ano da série. O produtor Kurt Sutter trabalha numa minissérie prequel de Sons of Anarchy. Julian Fellowes afirmou estar interessado em narrar os primeiros dias de Downton Abbey.

Better Call Saul

Better Call Saul é, portanto, mais uma série a explorar este recurso: premiar os fãs de Breaking Bad com mais um pouquinho do universo extraordinário desta que é provavelmente a série televisiva mais influente do século XXI. Vamos embarcar nos primeiros dias da carreira do advogado de porta de cadeia Saul Goodman.

A série abre com um bela sequência em preto e branco, onde vemos Saul (Bob Odenkirk) escondido da polícia, trabalhando com outra identidade, como gerente de uma rede de fast food. Este é o vislumbre de seu destino. O que veremos em Better Call Saul é a sua origem: como Jimmy McGill, um advogado medíocre, que se sustenta trabalhando como frelance para a defensoria pública, vai fazer fortuna lavando dinheiro e representando organizações criminosas.

Em seu primeiro episódio, Better Call Saul consegue ser tão empolgante e bizarra e sofisticada como nos melhores episódios do segundo e terceiro ano de Breaking Bad, antes da série se tornar o fenômeno de massa que se tornou. Já no segundo episódio, que coloca com Saul prestes a ser assassinado no deserto, a série consegue se igualmente empolgante e tensa e desconfortável como foi durante todo o ano final de Breaking Bad.

Better Call Saul

Ou seja, Better Call Saul consegue ser tão fresca como sua antecessora e tão dramática como ela, o que a torna uma atração obrigatória para os fãs da obra de Vince Gilligan. E o que é melhor: Saul não está sozinho. Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) está na série, desde o piloto. E Tuco (Raymond Cruz). E sua gangue. E a simples possibilidade de que, em algum momento, possamos ter uma cameo de Jesse Pinkman (Aaron Paul) ou de Gus Fring (Giancarlo Esposito) já é motivo de sobra pra acompanharmos a série.

Mais do que tudo, Vince Gilligan é um grande contador de histórias e um grande cineasta, com uma equipe criativa afinada para fazer belos enquadramentos, grandes cenas e tirar mesmo de atores pouco conhecidos atuações grandiosas.

Mas Better Call Saul é um prequel.

É uma história que você sabe aonde irá, aonde termina, como termina. Você sabe que Saul não morrerá no deserto. Você sabe o destino de Mike. E de Tuco.

Este é o problema do prequel. Você sabe qual é o destino e só resta relaxar e curtir a paisagem durante a jornada.

Ou seja, Better Call Saul é bacana, certamente a melhor estreia destes primeiros dois meses do ano. Mas ela não tem, absolutamente não tem, como te surpreender.

* * *

Better Call Saul estreou no dia 8 de fevereiro nos Estados Unidos no canal AMC. A distribuição no Brasil é feita pela Netflix. Os dois primeiros episódios já estão disponíveis para os assinantes do serviço de streaming.

Séries citadas:

É jornalista, pós-graduado em Jornalismo Digital pela Pucrs e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. É editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Fundou o TeleSéries em agosto de 2002. Na época, era fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed. Atualmente é viciado em The Good Wife, NCIS, Game of Thrones e Parks and Recreation.

6 Comments

  1. Raquel Perez

    Showzaço de review e obrigadíssima pela excelente aula sobre prequel, que há muito tempo queria saber!!

  2. Maria Inez Nêssarte

    Muito boa matéria, para os fãs é como um prêmio… Quando bem feita como essa. Agora que já sei o que, é o Prequel que mais gostei são Smallvile e Caprica .

  3. Thiago

    Prequel… Prelúdio. O melhor filme dos X-Men foi First Class. Adoro jogos de videogame como Zelda, que vez ou outra contam uma história alguns séculos no passado… E isso não atrapalha minha imersão.

    Digo o mesmo em BCS. Sim, ele não vai morrer. Nem Mike, nem Tuco (a menos que tenhamos um paradoxo temporal e esse seja um universo paralelo). Só que não vemos uma série pra pela tensão ou probabilidade da morte de um personagem. Entre outro, vemos pelo andamento da história, de seu desenvolvimento… De como a coisa vai do ponto A até o ponto Z e o que aconteceu nesse rumo.

    Como ele e Mike vão trabalhar juntos e esse trabalho de advogado de traficantes resultará em coisas terríveis na vida de Saul? Tô aqui pra isso. Tensão pela morte de um personagem é em Game of Thrones e afins. Particularmente…tô gostando da história, da fotografia, dos diálogos…

    Não é Breaking Bad e ninguém deve assistir querendo que seja BB. E as vezes um prelúdio não faz mal… Se contada de maneira certa, porque não ver a trajetória inicial de um personagem já estabelecido? Pra mim, Better Call Saul funciona. Funciona para fãs de BB e também para quem não gostava da mesma…

  4. Filipe Degani

    O texto é uma excelente matéria sobre o gênero prequel. Mas no seu aspecto opinativo, senti ele limitado. O fato de sabermos algo sobre o futuro do prequel não o torna menos interessante. In my opinion, vale muito mais o percurso e sua execução do que o destino. Até porque mesmo em séries convencionais, muitos dos desfechos são bastante óbvios. Não acho que seja incompatível com um prequel ser surpreendente. Nesse ponto, acho que houve generalização.

  5. Atila

    Better Call Saul é um prequel? Prequel que abre com uma cena PÓS-BREAKING BAD? Só aquela cena já serviu pra quebrar todo esse texto. E vince ghiligan há havia dito que vai ter flashback e flash-foward.

  6. klaus

    Confesso q achei um pouco tedioso o 1º ep. (todas as cenas são com o Saul – um pouco de cansaço), mas depois a coisa foi ficando mais interessante.

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