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As primeiras impressões de ‘The Newsroom’

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The Newsroom

Estava tudo lá. Todos os elementos esperados em uma série que leva a assinatura de Aaron Sorkin estavam presentes. Os diálogos rápidos, o tom ácido, a crítica ao patriotismo cego e ao sistema político. Na primeira cena, acompanhamos um debate sobre a política americana onde estava presente o protagonista Will McAvoy, o âncora de um telejornal de uma rede de TV fechada, que tentava a todo tempo se manter neutro nas questões mais polêmicas. Em meio a perguntas e respostas, o mediador aproveita para caracterizar o personagem, explicando que ele é sempre lembrado por não tomar partido. Mas é claro que isso dura pouco.

Ao ser questionado sobre a razão da soberania americana, ele tenta manter a mesma postura indiferente, evitando maiores polêmicas. Mas a “visão” de uma mulher na platéia e a insistência do mediador para que ele saísse da sua zona de conforto o compelem a dizer o que realmente pensa: Os Estados Unidos não é o maior país do mundo. Por longos poucos minutos ele faz um discurso incrível, com argumentos capazes de deixar o mais patriota dos americanos boquiaberto. Chamado de louco, ele atribui o episódio a um remédio para vertigem.

Três semanas após o incidente no debate, voltando ao seu noticiário depois de uma folga, o âncora está de volta a redação do noticiário que lidera. Surpreso, encontra o ambiente praticamente vazio. É aí que recebe a notícia que perdeu a maioria da sua equipe para um novo programa, liderado pelo seu atual produtor executivo. Ao ser questionado, o presidente da emissora informa a Will que ele terá que montar uma nova equipe, e que uma nova produtora executiva já foi contratada. Ao saber quem é a escolhida, ele tem um surto, e se recusa a todo custo a trabalhar ao lado da nova parceira. Sem muita surpresa, somos apresentados à MacKenzie McHale, a mesma mulher que causou o surto de sinceridade a McAvoy no debate. Não é preciso muita informação para que saibamos que eles são velhos conhecidos, tiveram um caso amoroso no passado, mas que não são melhores amigos, muito pelo contrário. Somos levados a entender que ela fez algo de errado, já que é ele que não suporta a presença dela. Enquanto discutem o passado e o futuro, o produtor Jim Harper, que acompanhou Mackenzie na nova empreitada, recebe a notícia de um acidente em um poço de petróleo no Golfo do México. Seguindo seu faro jornalístico (e com bastante sorte, diga-se de passagem), ele percebe que a notícia vai bem além do que se apresenta. Trata-se de um vazamento de óleo de grandes proporções, que viria a ser um dos maiores acidente ambiental da história. Na outra ponta está Don Keefer, o ainda produtor executivo, prestes a deixar o jornal, que preza pela moderação, e acha que ainda é muito cedo pra muito alarde. Somos apresentados ainda a Dev Patel, escritor do blog de Will, e a Maggie (Maggie, Margaret, Maggie) que começa o episódio como estagiária, e termina como Produtora Associada.

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O que vemos a partir daí é o desenrolar da cobertura jornalística. Will decide seguir o faro de Harper, e as discussões de quem está certo e quem está errado dá lugar a uma incessante busca por fontes, notícias, entrevistas e depoimentos. Como não podia deixar de ser, a parceria entre Will e Mackenzie se revela um sucesso. A notícia que a princípio se tratava de uma pequena nota se transforma em um grande furo de reportagem. Por fim, os protagonistas percebem que juntos podem realmente fazer um trabalho de qualidade, se deixarem de lado as diferenças do passado, coisa que sabemos que não vai ser fácil.

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Mas não posso deixar de falar dos defeitos. O episódio trouxe alguns clichês desnecessários, como o diálogo em que Mackenzie diz que Will não se lembraria da noite em que conheceu seus pais, e ele narra com detalhes o acontecimento. Ou a cena em que ela tenta revelar ao âncora que ele não teve uma alucinação quando a viu na platéia do debate, e a porta do elevador fecha sem que ela consiga dizer a verdade (por que ela estava carregando aqueles papéis três semanas depois do fato?). Outras coisas acabaram ficando bregas, como a trilha extremamente melancólica no final do discurso de Will no debate. Mas essas coisas não chegam a atrapalhar o episódio. São 72 minutos que passam despercebidos diante de tanta genialidade. Os diálogos são impecáveis. Os atores estão no tom exato (talvez a minha dúvida em relação a isso tenha sido a Emily Mortimer, como Mackenzie). A produção é de um capricho poucas vezes visto na TV. Tenho certeza que a série chegará ao final do ano como um dos grandes destaques. O único problema é que a temporada terá apenas 10 episódios.

The Newsroom

Observação: achei o piloto muito parecido com o episódio de estréia de outra série do Sorkin, Studio 60 on the Sunset Strip. Também em Studio 60, um ex-casal é obrigado a passar por cima de suas diferenças para trabalharem juntos novamente. Nas duas séries, um programa de TV sofre baixas na equipe e precisa recomeçar com um novo grupo. Mas o que mais me chamou atenção foi o sistema que sinaliza a importância da notícia em The Newsroom, que trouxe ao episódio a mesma tensão que o relógio trazia em Studio 60. Não acho que isso seja um defeito, muito pelo contrário. O roteirista nunca escondeu o descontentamento por não ter podido terminar de contar a história que tanto queria naquela época. Vamos torcer pra que desta vez, ela tenha tempo de sobra pra dizer o que tem vontade.

Séries citadas:

Analista de Sistemas, mas só porque assistir séries não dá dinheiro. Fã de Six Feet Under, Breaking Bad, comédias da NBC, Happy Endings e qualquer coisa que Aaron Sorkin escrever. Não tem vergonha de falar que gosta de Grey's Anatomy e Revenge.

8 Comments

  1. Fernando dos Santos

    Pretendo conferir Newsroom quando estrear no Brasil. Num outro site eu li que a critica americana não gostou do piloto, alegando que o Aaron Sorkin fez uma mera reciclagem de dialogos e cenas de suas produções anteriores como Studio 60 e West Wing entre outras.
    Apesar disso vou dar uma conferida na série pois gosto muito do trabalho do Sorkin e até mesmo quando ele se repete ainda consegue fazer uma obra acima da média.

  2. Tiago Oliva

    Sinceramente, eu não vejo problema nesse lance de reciclagem. Todo autor se auto-referencia em suas obras, pelo menos os que tem uma marca mais forte. É o caso de Woody Allen, Scorcese, Tarantino, só pra exemplificar. O problema é que os críticos tem um birra muito forte com Sorkin, e dificilmente eles vão dar o braço a torcer.

  3. Fernando dos Santos

    É fato que todo autor tem seus temas recorrentes mas no caso de Newsroom parece que os criticos americanos reagiram como se o Sorkin estivesse com preguiça de criar uma nova historia e apenas reaproveitasse suas obras anteriores fazendo uma mera colcha de retalhos com pedaços de suas produções antigas. Quem sabe ao longo da temporada ele vai conseguindo fazer os criticos olharem a produção com alguma boa vontade.
    A boa noticia é que os indices de audiencia da estreia foram bons.

  4. biancavani

    Ah, como eu estava precisando assistir a uma série boa, mas acabei recebendo uma sublime (parafraseando Hilda Hilst “se amar série é merecimento, tenho servido Deus bem a contento”)!
    Aquele início, o discurso, as pausas… uau! Será que já assisti a alguma série que, tão no princípio, agarra a gente com tanta força?
    Quase insuportavelmente tensa. Ufa. Atores, diálogos, ângulos de análise – tudo perfect (e pronuncio este adjetivo  com aquele accent encantador da Mackenzie).

    E agora vou ler a review do grande Tiago, para enriquecer a minha leitura do episódio.

  5. biancavani

    T, quanto a ser apenas 10 epis por temporada, normal para séries da HBO. É muito difícil manter a qualidade em temporadas de 20, 23 episódios. Mesmo que sejam boas, por exemplo, NCIS ou, sei lá, Good Wife, ficam meio cansativas, e assistimos mais por costume, mais porque as personagens se tornam nossas amigas de TV.
    Homeland, Six Feet Under, Dowton Abbey, Game of Thrones, Doctor Who, Carnivàle, Familia Soprano – todas essas têm em comum a temporada de 8, 10, 13 epis… e serem extraordinárias.

    Conversa paralela: Sorkin, por intermédio de algumas personagens, deu umas boas cutucadas nos seus desafetos, rsrs. Tomara que estejam morrendo de ódio, porque de inveja já morreram várias vezes.

  6. Tiago Oliva

    Obrigado pelo “grande”, Bianca. O episódio realmente foi magnífico. Pra mim, o melhor do ano. Sobre o fator qualidadexquantidade, você tem razão. As séries de TV fechada tem maior custo na produção, e por isso as temporadas são reduzidas. Mas as séries do Sorkin que foram exibidas nos canais abertos, tinham qualidade semelhante, e temporadas maiores. Eu sei que é melhor pouco que nada, mas pô, vai ser tão pouco.

  7. biancavani

    É verdade. No caso de West Wing, Studio… (Lost também) is fucking true!

  8. Pingback: ‘The Newsroom’ e ‘True Blood’ são renovada pela HBO

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