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As primeiras impressões de ‘Fresh Off the Boat’

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Bem-vindo ao mundo das comédias familiares étnicas!

Pai, mãe e filhos. Durante muitas décadas, esta foi a fórmula infalível da comédia na TV americana. A grande maioria das séries giravam em torno de núcleos familiares bem definidos, oferecendo um tipo de humor feito sob medida para ser visto pelas famílias norte-americanas.

A fórmula pareceu ter se esgotado nos anos 90 do século XX e na década passada. O foco dos canais de TV passou pra comédias em ambiente de trabalho (Newsradio, Scrubs, The Office), na ênfase às relações de amizade (Friends, How I Met Your Mother, The Big Bang Theory) ou mesmo em torno do “nada” (Seinfeld).

Fora de mora, eis que as relações familiares voltaram ao topo no final de 2009, com tudo o sucesso instantâneo de Modern Family. Aberta a novas configurações familiares, a série da rede ABC está em suas sexta temporada de sucesso, não cansa de ganhar prêmios e apontou um caminho para o canal, que hoje possui um bloco sólido de sitcoms nas noites de quarta-feira.

Todas estas sitcoms, claro, giram sobre famílias. Se Modern Family é a comédia das famílias modernas, a ABC emplacou rapidamente o seu contraponto com The Middle – uma visão mais realista de uma clássica família de classe média, mostrando como a crise econômica afeta o sonho americano. No ano passado, o canal acertou mais uma bola dentro, com The Goldbergs, buscando um público telespectador mais velho explorando o saudosismo dos anos 80, a década em que a revolução tecnológica e o consumo provocou profundas transformações na rotina das famílias.

Como em time que está ganhando não se mexe, a ABC radicalizou nesta temporada e foi buscar outros tipos de família para preencher sua grade. Acertou na mosca: em Black-ish, ela discute a identidade dos negros que saíram do gueto para os subúrbios, com Cristela, reabre espaço para mostrar a luta dos latinos por ascensão social nos EUA.

E agora, com Fresh off the Boat, o canal abre um espaço inédito na TV para mostrar como é uma família asiática.

Fresh off the Boat é, portanto, paradoxal: ao mesmo tempo igual a tudo que já vimos e inovadora por colocar um novo grupo cultural no centro da ação, que nunca vimos antes.

Inspirada na biografia Fresh Off the Boat: A Memoir, do chef de cozinha Eddie Huang, e assinada pela produtora Nahnatchka Khan (criadora de Don’t Trust the B—- in Apartment 23), a série acompanha uma família taiwanesa, que migra de Washington, onde vivia cercada de iguais no bairro chinês, para tentar realizar o sonho americano em Orlando, na Flórida. Daí vem o nome fresh off the boat, expressão usada para designar os estrangeiros que emergem numa nova cultura, desconhecida.

Fresh Off the Boat

Eddie (o ótimo menino Hudson Yang) é o narrador. Mais velho de dois irmãos, Evan (o certinho) e Emery (o que só se dá bem), Eddie sofre para se readaptar numa nova cidade. Enquanto isto, seu pai (Randall Park, com passagem por The Mindy Project) tenta emplacar seu restaurante – que curiosamente não é um restaurante chinês, mas uma churrascaria, que imita uma rede de restaurantes popular. Ainda temos a vó (Lucille Soong). Mas o destaque do elenco mesmo fica com Constance Wu, que encarna o papel da durona matriarca da família. Sempre de cara fechada, pouco afetuosa e exigindo o máximo dos filhos, ela representa aquilo que imaginamos como o estereótipo de uma família chinesa.

Aliás, este era o grande medo da imprensa norte-americana quando Fresh off the Boat foi anunciada. Em tempos de A Entrevista, esta é mais uma produção feita para debochar de uma cultura que não conhecemos? Não, não é.

A graça de Fresh Off the Boat, assim como a de Black-ish, é mostrar o conflito entre tradição e modernidade na formação da identidade das famílias.

A série é ambientada nos anos 90 e vemos um Eddie que já pouco possui da cultura de seus antepassados – o garoto idolatra a cultura hip hop, citando o tempo todo rappers como Notorious B.I.G. e Snoop Dogg e astros do basquete. Ainda assim, para as outras crianças, ele não é um americano. Deste conflito temos uma sólida premissa para uma comédia.

Divertida e com boas referências aos anos 90, o que falta nos dois primeiros episódios de Fresh Off the Boat são mais e melhores piadas. As que estão lá funcionam, mas a série parece se arrastar um pouco.

De qualquer maneira, durando ou não (na primeira semana a série teve desempenhos distintos já que ao mesmo tempo que elevou a audiência de The Middle na estreia, não foi capaz de reter a audiência de Modern Family no segundo episódio), Fresh off the Boat é uma série a ser vista por tudo o que significa. A América é multicultural e cabe a TV refletir todas estas culturas. E a vez dos imigrantes asiáticos chegou, esta é a mensagem.

* * *

Fresh off the Boat estreou no dia 4 de fevereiro nos EUA, na rede ABC.

Séries citadas:

É jornalista, pós-graduado em Jornalismo Digital pela Pucrs e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. É editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Fundou o TeleSéries em agosto de 2002. Na época, era fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed. Atualmente é viciado em The Good Wife, NCIS, Game of Thrones e Parks and Recreation.

2 Comments

  1. Thiago FLS

    Adorei os dois primeiros episódios, e diria que Fresh Off the Boat teve um início até melhor que o de Black-ish. E que achado essa Constance Wu, hein? Além de muito engraçada, ela parece uma Olivia Munn ainda mais linda.

    O problema é que a partir de hoje a série passa a ser exibida nas terças, no mesmo horário em que a injustiçada Selfie não vingou. Espero que Fresh Off the Boat se saia melhor, porque merece.

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