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As primeiras (e últimas) impressões de ‘Mockingbird Lane’

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Série: Mockingbird Lane
Episódio: Piloto
Número do episódio: 01×01
Exibição nos EUA: 26/10/2012
84
4.2
2

Existe uma frase engraçada, que às vezes é creditada a Jaguar, outras vezes ao Paulo Francis, mas sempre em referência ao Cinema Novo, que diz: “o filme é uma merda, mas o diretor é genial”. Lembrei dela imediatamente após assistir a Mockingbird Lane, especial de Halloween exibido pela rede NBC no último dia 26 de outubro. O programa é o episódio piloto de um remake de Os Monstros (The Munsters), que ficará só no piloto – já que a atração teve audiência medíocre e gerou pouquíssimo buzz.

Aqui não temos um diretor genial (mas ele é muito bom, é o Bryan Singer, que foi quem fez o piloto de House), mas temos um roteirista e produtor executivo genial: Bryan Fuller, a mente pro trás de séries cultuadas como Dead Like Me, Wonderfalls e Pushing Daisies e o cara que, por alguns meses, fez o mundo crer que Heroes poderia superar Lost. As séries assinadas por Fuller são visualmente ricas e com um texto que ao mesmo tempo aborda questões espinhosas (morte, morte, morte), o faz com sensibilidade e humor. Suas séries transitam naquela zona cinza entre o drama ou comédia, mas são mais fáceis de serem classificadas por outra característica: o fato de colocar o que é fantástico ao lado do que é trivial, como num romance de realismo mágico. Com Fuller nos acostumamos a ver humanos falando com objetos inanimados, ceifadores vivendo entre humanos, um homem ressuscitando pessoas com um toque, e a acreditar em tudo isto, por mais absurdo que possa parecer.

Mockingbird Lane

Nada mais natural que Fuller fosse escalado pra fazer um remake de Os Monstros. Quem mais poderia tornar crível uma família formada por um frankenstein, vampiros e lobisomens?

Fuller é o homem certo para um trabalho deste tipo. A questão é outra: este é o trabalho certo? Os Monstros podem estar no imaginário de diversas gerações, mas está no imaginário pelas razões certas? A série teve cerca de 70 episódios exibidos pela rede CBS entre 1964 e 1966. Historicamente é pouco relevante e, não raras vezes, nós vemos pessoas que a confundem com A Família Addams, que existiu exatamente na mesma época, teve praticamente o mesmo número de episódios, mas sobreviveu melhor a passagem do tempo – retornando ao longo das décadas em desenhos animados e numa bem-sucedida adaptação cinematográfica. A Família Addams e Os Monstros são também vítimas de um período de transformação da TV americana, mais ou menos como vemos hoje com a passagem da TV para a alta definição. São shows produzidos em preto e branco, que morreram porque não tinham como funcionar, ao menos não imediatamente, gravados em cores. Mas sobreviveram na nossa imaginação por conta de décadas de constantes reprises, seja nos EUA, seja no Brasil.

Mockingbird Lane

Fuller trouxe não só a cor a Os Monstros (ok, existiram dois ou três telefilmes coloridos de Os Monstros, mas pouca gente lembra) mas aquela atmosfera de filme de Tim Burton que Pushing Daisies já tinha. Ele trouxe vida e sensibilidade e possibilidades para uma série que tinha um plos bem repetitivo e previsível – Herman e sua família tentando se integrar entre os humanos, sem sucesso.

A releitura é delicada, mantendo a essência dos personagens mas mudando suas aparências. Em Mockingbird Lane, Herman é vivido por Jerry O’Connell (Crossing Jordan), sem pinos no pescoço, sem o tamanho de um monstro – mas com o corpo retalhado e um coração sensível (que está falhando e precisa ser substituído pra que possa viver). Grandpa, agora na pele de Eddie Izzard (The Riches), é o vampiro – bem mais malvado que o vovô original, ele luta para que a família não rejeite sua natureza. Lily, aqui interpretada por Portia de Rossi (Arrested Development), não parece ser uma vampira como na série original, parece mais uma bruxa ou feiticeira, e é a personagem menos desenvolvida do piloto (ainda que roube a atenção com os efeitos especiais que realçam sua beleza e seu ar de mistério). O garoto Eddie (Mason Cook, ator-mirim talentoso com passagens por Grey’s Anatomy e The Middle), ainda não sabe que é um lobisomem e é em torno disto que gira o episódio, da família contar a verdade para ele. A única personagem que mudou pouco de uma versão para outra é Marilyn, a filha normal da família, aqui interpretada pela inglesa Charity Wakefield (da versão para TV de Razão e Sensibilidade). A graça aqui é que Marilyn é renegada pelo avô, tratada como se fosse uma deficiente, abrindo um leque de possibilidades para se discutir a inserção social (tema tão em moda na TV americana).

Mockingbird Lane

Mas se Mockingbird Lane é tão visualmente rica e tão esteticamente sofisticada, afinal, qual é o problema? Eu realmente acho que o projeto não combina com o tempo. Não acho que esta seja a época ideal pra uma série assim nos EUA. Estamos em plena era de Modern Familiy, não precisamos de metáforas pra falar sobre preconceito, aceitação, inclusão e famílias anti-convencionais. Além do que, parece que remakes se tornaram uma bengala para a TV americana nos últimos anos. As séries de TV carecem de novas ideias, não da reciclagem de antigas. E Bryan Fuller, com carta branca de uma emissora corajosa, poderia trazer o sopro de genialidade para as telas que estamos procurando.

Apesar do silêncio da NBC, na semana passada Eddie Izzard confirmou que Mockingbird Lane não deve retornar. Bryan Fuller inclusive tocou a vida, e trabalha desde o ano passado em outro projeto arriscado da NBC, Hannibal, série inspirada no serial killer Hannibal Lecter, o inesquecível personagem do escritor Thomas Harris. E se Hannibal der errado, bom, vocês já sabem: a série é uma merda, mas o roteirista é genial.

Séries citadas:

É jornalista, pós-graduado em Jornalismo Digital pela Pucrs e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. É editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Fundou o TeleSéries em agosto de 2002. Na época, era fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed. Atualmente é viciado em The Good Wife, NCIS, Game of Thrones e Parks and Recreation.

4 Comments

  1. Beto Carlomagno

    Eu, como fã de Pushing Daisies, fiquei extremamente feliz com o resultado final de Mockingbird Lane. Caso tivesse sido escolhida para se tornar série, seria uma ótima opção para os órfãos de Ned e o pessoal do Pie Hole. Adoro este tom “Tim Burton” utilizado, esta mistura de humor e drama e gostei muito da caracterização dos personagens.

  2. Paulo Serpa Antunes

    Foi doloroso pra mim dar uma nota baixa e criticar Mockingbird Lane.Queria ter adorado a série :)
    Mas entendo que você tenha curtido Mockingbird Lane. Ela tem uma vibe Wisteria Lane!

  3. Beto Carlomagno

    Exatamente Paulo, agora que você disse, percebo algumas semelhanças. Deve ser minha carência por Desperate Housewives falando. hauhauha

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